ALESSANDRA SILVA Colunista de Tecnologia
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A repórter que desnudou o ChatGPTAo lançar nova edição de seu livro sobre a OpenAI, Karen Hao sustenta: corporação de Sam Altman quer transformar tecnologia promissora em máquina de alargar desigualdades e eliminar direitos. Respostas: resistência social e código aberto Entrevista a Carles Planas Bou, em El Periodico | Tradução: Antonio Martins No final de 2019, Karen Hao tornou-se a primeira jornalista a visitar os escritórios da OpenAI. Naquela época, a startup de inteligência artificial era desconhecida fora do Silicon Valley. Seu líder, Sam Altman, insistia que sua missão era criar uma máquina com a capacidade de aprendizagem e raciocínio da mente humana para salvar o mundo, mas Hao soube detectar muitas fissuras nesse discurso idealista. Após publicar sua reportagem crítica e rigorosa, a empresa proibiu que ela voltasse a entrar em sua sede. “No começo me senti muito mal (…) mas o importante não é manter o acesso, e sim dizer a verdade”, explica a El Periodico. Dois anos depois, o lançamento do ChatGPT desencadeou uma competição comercial e geopolítica que já alterou nossa realidade. Hao usou o desprezo da OpenAI como motivação. Suas habilidades jornalísticas e conhecimentos técnicos profundos — ela é engenheira mecânica formada pelo MIT — cristalizaram-se em The IA Empire [O Império da IA, recém-publicado na Espanha pela Edições Península], uma pesquisa enciclopédica que disseca com precisão cirúrgica o impacto global da indústria de IA. Baseia-se em mais de 200 entrevistas, documentos internos e uma lucidez narrativa que transforma o primeiro livro de Karen hao, um ensaio de quase 600 páginas, numa leitura fascinante. Sam Altman ficou tão perturbado que tuitou que ninguém deveria ler a obra. Você compara a indústria da IA com os antigos impérios. Por quê? Porque essas empresas estão acumulando uma quantidade histórica de poder econômico e político. Como? Faço quatro paralelos. O primeiro é a apropriação de recursos que não são delas, como os dados que coletam da internet para treinar seus modelos. O segundo é a exploração de trabalhadores que não recebem quase nada em troca e que também se manifesta no desenho de sistemas que automatizam o trabalho e corroem os direitos trabalhistas. Isso não é uma característica inerente à IA, e sim uma escolha política. O terceiro é que monopolizam a produção de conhecimento, capturam o talento dos pesquisadores em IA e distorcem a compreensão fundamental que o público tem das limitações e capacidades dessas tecnologias, permitindo apenas determinados tipos de pesquisa e censurando a pesquisa crítica. E o quarto é que recorrem a um discurso moral imperativo sobre sua existência. Ganhar a corrida para evitar que a China o faça. Dizem que são os impérios bons com uma missão civilizatória de levar o progresso e a modernidade a toda a humanidade. Precisam de acesso sem restrições a todos esses recursos porque estão imersos numa intensa corrida existencial com o suposto império malvado: a China, segundo o Vale do Silício. E se os maus chegarem primeiro à meta, isso levará ao desaparecimento da humanidade. Em contrapartida, se os Estados Unidos vencerem, a humanidade terá a oportunidade de elevar-se a uma utopia ou a um paraíso da IA. Muitos políticos abraçam acriticamente essa narrativa de que a IA equivale a progresso. Mas para um império prosperar, sempre é preciso sacrificar uma parte da população. Exato. Devemos rebater a crença de que precisamos de impérios e das zonas de sacrifício que acarretam para obter os benefícios da IA. Há certos tipos de IA que podem ser profundamente benéficos para a Saúde ou as oportunidades econômicas. Mas é preciso separar isso da concepção que o Vale do Silício vende – a de que se requer uma forma imperial para controlar toda a terra, a energia, a água, os dados, a mão de obra e o capital e produzir algo que, em última instância, não gera tantos rendimentos e não é realmente um modelo de negócio viável. Por isso creio que, quando os políticos caem na armadilha de que só há um caminho para o desenvolvimento da IA, também caem no erro de que há certos tipos de danos planetários que temos que aceitar. Danos ambientais, trabalhistas… Não apenas. O que está ocorrendo é muito perigoso porque não falamos de danos isolados, e sim de um perigo para a democracia. Com o governo Trump 2.0 temos visto como estas corporações estão despojando tanta gente de seus recursos, de sua capacidade de ação, a ponto de pensarem que já não podem controlar seu futuro. E então voltamos a uma época em que um pequeno grupo de pessoas no topo pode ter uma profunda influência na vida de bilhões de pessoas em todo o mundo. E essa erosão fundamental da liberdade é o que permite a proliferação desses impérios. A OpenAI passou da promessa de curar o câncer à criação de algo parecido com um chatbot pornô. A empresa está a caminho de perder 27 bilhões de dólares nos próximos dois anos. O boom de investimentos em IA são sete empresas fazendo empréstimos umas às outras de forma circular. E o investidor Michael Burry, que antecipou a crise hipotecária de 2008, vendeu suas ações na Nvidia. É um negócio viável? Não é de forma alguma um negócio viável. As corporações já estão ficando sem meios para monetizá-lo. Testaram com assinaturas, mas a maioria das pessoas e empresas não quer pagar por esta tecnologia. Por isso, agora estão tentando montar uma estratégia para oferecer anúncios. Mas nem mesmo isso funciona para o Google, que tem o maior negócio publicitário da história. A OpenAI está tentando tapar um buraco de 1,4 bilhão de dólares. Também estão tentando lançar um monte de produtos de consumo que, como o Sora 2, viralizaram e depois decaíram. Não vejo como vão fechar este buraco, porque nunca existiu um modelo de negócio na indústria tecnológica que tenha gerado os rendimentos necessários. A coisa não parece nada bem. Com as redes sociais nos acostumamos a ceder nossa privacidade. O que muda com a IA? No passado, as pessoas forneciam todos os seus dados sem se dar conta de que essas empresas podiam corroer as democracias em todo o mundo. Depois vimos como a Meta estava fomentando uma limpeza étnica em Mianmar e a violência em todo o mundo. Os impérios da IA elevaram os danos a outro nível. O ritmo atual de construção de data centers está provocando um aumento histórico da demanda energética tanto nos EUA quanto na Europa, e está começando a colocar em perigo os objetivos de luta contra a mudança climática, a reverter todos os avanços climáticos que conseguimos, a aumentar a contaminação atmosférica nas comunidades, a agravar a crise da água. O que você diria então aos usuários do ChatGPT? Que quando fornecem dados a essas empresas, o que realmente estão fazendo é fornecer poder aos impérios, para que sejam cada vez mais fortes e menos responsáveis. Não estão apenas erodindo nosso meio ambiente, nossa saúde, nossa privacidade, nossa propriedade intelectual e nossa capacidade futura de ter oportunidades econômicas. Também estão erodindo as liberdades e capacidades fundamentais para determinarmos nosso futuro. Que ferramenta pode valer nossa liberdade? É preciso apostar em alternativas? Há muitas formas de desenvolver tecnologias de IA benéficas que não requerem impérios, nem esse comportamento exploratório e extrativista. Quanto mais se reforça a imagem de marca de empresas como a OpenAI, menos investimento é destinado a alternativas que não nos prejudiquem. No primeiro trimestre de 2025, quase 50% do capital de risco foi destinado unicamente à OpenAI e à Anthropic. O investimento em tecnologias climáticas diminuiu drasticamente porque os mesmos investidores estão retirando seu dinheiro e destinando-o à ampliação desses modelos de IA. Esses impérios estão prejudicando nosso futuro de muito mais formas do que pensamos. O código aberto é essa alternativa? Claro que sim. Quando se utilizam modelos de código aberto, não se cede poder ao império. Os dados não saem do seu dispositivo. Não vão parar no servidor de alguma empresa que depois os utiliza para construir modelos cada vez maiores. A forma-chave de desafiar os impérios é minar sua monopolização do conhecimento. O código aberto permite isso, porque pesquisadores independentes que não são financiados por essas empresas, podem investigar os modelos, compreender as limitações e capacidades das tecnologias e criar conhecimento de interesse público sobre como queremos utilizar essas ferramentas, como regulá-las e governá-las. Precisamos de mais dessa produção de conhecimento independente para minar o monopólio narrativo que os impérios possuem. Os gigantes que querem implantar seus centros de dados vendem, a políticos locais que não entendem de tecnologia e só pensam em ciclos eleitorais, promessas de grandes investimentos e criação de postos de trabalho. Essa assimetria de poder é uma ameaça para as comunidades? Sem dúvida. Vão às cidades mais vulneráveis e economicamente subdesenvolvidas, para seduzir o governo local de plantão. E o fazem a portas fechadas, ocultando suas atividades, de modo que os moradores não possam protestar. Nos EUA já estão pedindo aos funcionários públicos que assinem acordos de confidencialidade antes mesmo de negociar esses acordos sobre data centers. Estão tornando impossível o funcionamento da democracia. Negam que as pessoas possam se opor a como utilizam enormes quantidades de recursos públicos, como a água, ou a como aumentam as contas de energia das pessoas. Atuam na obscuridade porque querem instalar sua infraestrutura antes que os cidadãos reajam, o que demonstra até que ponto suas ações são impopulares. Não podemos falar de IA sem mencionar que as tarefas cruciais são terceirizadas de forma precarizada no Sul Global. Qual é essa outra realidade que tentam ocultar? O usuário médio do ChatGPT não percebe que a razão pela qual não é inundado por discursos de ódio tóxicos, e por assédio, é o fato de haver outras pessoas expostas a isso – cujo papel é ensinar aos filtros de moderação de conteúdo o que bloquear. A OpenAI contratou esses trabalhadores no Quênia. Sua tarefa é similar à dos moderadores de conteúdo das redes sociais – ou até pior, porque não só lhes é mostrado o mais daninho que as pessoas publicam na internet, mas também o mais prejudicial criado pelos próprios modelos de IA. É como um espaço infinito de dor. | A A |
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Automação, atalho para o Comunismo?Em livro provocador, Aaron Benanav sustenta: são frágeis as visões distópicas (e também as utopias) baseadas em robótica e IA. Sua perspectiva: já há meios técnicos para garantir a abundância e a igualdade. Alcançá-las é tarefa da política MAIS: O texto a seguir é a apresentação do novo livro do sociólogo, historiador e economista Aaron Benanav, Automação e o futuro do trabalho, traduzido e editado no Brasil pela Boitempo, parceira editorial do Outras Palavras. Garanta o livro completo aqui. Automação e o futuro do trabalho, de Aaron Benanav, é um contraponto importante e objetivo às reiteradas projeções, sejam elas infernais ou paradisíacas, sobre um mundo onde robôs e inteligências artificiais substituiriam trabalhadores e trabalhadoras. Descendo à miséria de uma realidade sob o domínio do capital, Benanav redireciona o olhar dos leitores das especulações futuristas do Vale do Silício para a precariedade contemporânea dos subempregos de um capitalismo estagnado e suas recorrentes bolhas financeiras. Ao fazê-lo não se esquiva de uma crítica radical que nos coloca a tarefa de um enfrentamento à constante capacidade do capital de nos conduzir ao abismo. E é em meio a esse pesadelo mesmo, e a partir das suas contradições, que o livro projeta também um outro futuro, não de soluções tecnocráticas, mas de uma reorganização comunal do próprio trabalho. Benanav retoma e aprofunda as análises de Robert Brenner – especialmente a partir de The Economics of Global Turbulence, publicado em 1998 – sobre o longo declínio do capitalismo após os anos 1970i. Ao considerar os dados sobre a economia global do pós-guerra, e particularmente do setor industrial, Brenner indicou que a ascensão estadunidense e a reconstrução das economias de diversos países, em especial Alemanha e Japão, resultaram em uma sobrecapacidade industrial, o que reduziu a lucratividade e desacelerou os investimentos e a expansão do setor como um todo, trazendo sérias consequências para a economia mundial. Para Brenner, as iniciativas estatais, particularmente nos Estados Unidos, voltadas a estimular novamente a economia não foram absolutamente ineficazes, em especial ao longo dos anos 1990. No entanto, diante desse cenário de sobrecapacidade e sobreacumulação de capitais na indústria, elas não conseguiram restaurar os níveis de lucratividade e de crescimento do pós-guerra. Mais ainda, como Brenner argumentou posteriormente, o estímulo à economia estadunidense adveio de uma política monetária voltada à valorização de ativos, como ações e propriedades imobiliárias, o que resultou em uma sustentação da demanda nos Estados Unidos que, em última instância, revelou-se frágil. Nesse contexto de desindustrialização e estagnação efetiva, formaram-se bolhas, como a pontocom, que estourou nos anos 2000, e a imobiliária, em 2007-2008ii. A análise de Brenner fundamentou reflexões importantes sobre o contexto econômico dos desenvolvimentos tecnológicos contemporâneos. É a partir dela, por exemplo, que Nick Srnicek caracterizou o cenário “favorável” à plataformização do capitalismo criado pelas políticas monetárias estadunidenses desde o fim dos anos 1990 – especialmente durante a recuperação da crise financeira de 2008. Com o “dinheiro barato” disponível na economia dos Estados Unidos, mas diante dos constrangimentos da lucratividade da indústria, o capital financeiro subsidiou os arriscados investimentos da expansão “disruptiva” das plataformasiii. Na interlocução com Brenner, Benanav – que em outro ponto é crítico ao aceleracionismo de Srnicekiv e sua projeção de um mundo pós-trabalho – aprofundou o debate ao voltar-se para a questão do impacto da tecnologia sobre os empregos. Na economia marcada pelo longo declínio, Automação e o futuro do trabalho apresenta um contraponto aos discursos em voga que atribuem à tecnologia e à automação a responsabilidade pela atual desaceleração na criação de postos de trabalho. Por meio de uma análise dos dados internacionais sobre o crescimento da produção e da produtividade, Benanav demonstra que é na formação de sobrecapacidade na indústria que se encontra o cerne da baixa demanda por trabalho contemporânea – em um contexto, ademais, em que os ganhos de produtividade são tímidos quando comparados àqueles das duas décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial. O livro complementa a tese de Brenner ao indicar os problemas associados ao deslocamento relativo dos empregos para o setor de serviços, que se seguiu à desindustrialização em diversos paísesv. Resgatando os diagnósticos de William Baumol, Benanav argumenta que os entraves ao incremento da produtividade nos serviços significam que, nesse segmento, os preços caem de maneira mais lenta, quando comparados aos do restante da economia. Essa característica torna os serviços ainda mais propensos à precarização do trabalho na competição por demanda. Como, em geral, os serviços são mais fortemente marcados pelo que ficou caracterizado como “doença dos custos” – com os salários dos trabalhadores compondo aqui uma parte relativamente maior do preço pago pelos consumidores –, o ataque ao trabalho intensifica-se na busca pela redução dos preços, inclusive por meio das diversas plataformizações. O resultado, em termos globais, de uma sobrecapacidade e sobreacumulação na agricultura e na indústria, junto a um setor de serviços com um lento crescimento da produtividade, é uma estagnação econômica que, por sua vez, se traduz na disseminação de subempregos – algo distante, portanto, do discurso da eliminação geral de postos de trabalho por meio da tecnologia. Por certo, a partir dessa tendência, as posições de cada país na economia global são fundamentais. Automação e o futuro do trabalho não perde de vista, por exemplo, que os subempregos e a informalidade no Sul global estão longe de ser uma novidade. Pelo contrário, estão presentes e até mesmo se intensificaram antes mesmo do desenrolar dos processos de desindustrialização das últimas décadas. Por outro lado, o arcabouço jurídico dos diferentes países não é, de forma alguma, negligenciável na absorção dos impactos sobre a classe trabalhadora do longo declínio do capitalismo contemporâneo. Não obstante, o diagnóstico de Benanav é o de que a profundidade dos problemas demanda também propostas radicais para enfrentá-los. Ele retorna, assim, à história do keynesianismo, reiterando suas limitações, mas contrariando percepções usuais. Por exemplo, lembra que, diante das perspectivas de saturação da acumulação de capitais, do declínio do retorno sobre investimentos e da “maturação” das economias, Keynes e sobretudo seus seguidores mais radicais não propuseram um estímulo à formação de mais capital fixo para absorver força de trabalho excedente, mas a redução da jornada de trabalho e a socialização dos investimentos, orientando-os para os interesses públicos. Isso, no entanto, implicaria uma disputa com o capital pelas decisões sobre os rumos da sociedade; demandaria retirar do capital a capacidade, recorrentemente mobilizada, de jogar países inteiros no caos através de desinvestimento e, sobretudo, demandaria uma organização política extraparlamentar capaz de sustentar esse enfrentamento. Diante dessas tarefas, Benanav coloca uma importante questão a qualquer reformismo mais substantivo em um mundo estagnado: se tamanhas forças populares um dia forem reunidas a ponto de poderem “forçar o capital a se submeter a uma economia orientada para o investimento público, por que não exigiriam mais?”. As propostas contemporâneas, à esquerda, de uma renda básica universal (RBU), por exemplo, enfrentariam problemas semelhantes aos colocados aos keynesianos no século passado, mas em um contexto econômico e político ainda mais difícil. O diagnóstico do longo declínio da economia global diz respeito sobretudo a problemas na produção e não na distribuição. Isso é, diferentemente dos argumentos que apontam para um crescimento do desemprego, apoiado em uma alta produtividade do trabalho, impulsionada tecnologicamente, a economia contemporânea se vê, ao contrário, diante de uma sobrecapacidade e de uma estagnação – em meio, ademais, a uma crise ambiental de dimensões catastróficas. No argumento de Benanav, a questão não é, portanto, um problema de distribuição, dentro de um cenário de forte crescimento econômico global, que poderia ser corrigido através de dinheiro entregue a todos sem contrapartidas. O longo declínio significa que qualquer renda básica universal alta o suficiente para enfrentar desigualdades econômicas gritantes resultaria em um jogo de soma zero entre trabalho e capital. Isso, por sua vez, apontaria para uma disputa mais ampla com o capital pelo controle da economia e, novamente, a necessária reunião de forças no mundo do trabalho poderosas o suficiente para tal enfrentamento. Levaria, portanto, a questões e conflitos muito mais amplos do que a renda básica universal e que não deveriam encerrar-se nela. Com o declínio da economia mundial e as limitações dos projetos para enfrentar seus problemas, Benanav olha para o passado e resgata uma proposta comunista que é, ao mesmo tempo, modesta e ambiciosa: nas tradições que vão de Étienne Cabet a Karl Marx e Piotr Kropótkin, um mundo emancipado não pressupõe uma distante automação total da economia, a distribuição gratuita de dinheiro e o fim de nossas obrigações mútuas, mas uma reorganização da produção e da distribuição que rompa com o estranhamento da economia capitalista. A clássica divisão e interconexão proposta por esses autores entre necessidade e liberdade, entre trabalho e tempo livre, em uma futura sociedade emancipada, é retomada em Automação e o futuro do trabalho para prefigurar uma sociedade que garanta, nas palavras de Marx, o controle comunal da produção, a organização racional do metabolismo entre seres humanos e natureza, o mínimo emprego de forças e as “condições mais dignas e adequadas” para o trabalho. Na contramão das jornadas exaustivas e da intensidade sufocante do trabalho contemporâneo, o foco aqui é uma organização comunal que valorize e garanta cada vez mais tempo livre a todas as pessoas. Portanto, nem um mundo pós-trabalho, nem um mundo de uma ética voltada ao trabalho, mas uma reorganização coletiva e democrática de nossas necessidades e atividades produtivas, não mais ditadas pela expansão incontrolável e compulsória do capital. Não há aqui nenhuma tecnofobia, mas uma indicação de que é necessária uma transformação radical das relações de produção para que a tecnologia seja substantivamente empregada em um sentido emancipatório. Uma mensagem importante, que precisa ser sublinhada, ante os aceleracionismos de esquerda ou de direita em um mundo de emergência climática, minerações no Sul global e colapsos ambientais múltiplos. Automação e o futuro do trabalho junta-se, assim, a um conjunto de diferentes contribuições que, diante das investidas avassaladoras do capital sobre as condições de vida e sobre a subjetividade da classe trabalhadora, mergulham na miséria contemporânea para indicar aí a necessidade de saídas realmente revolucionárias. Por um caminho diverso, há três décadas István Mészáros lançava Para além do capital, que discorria sobre a profundidade da crise estrutural, suas manifestações também nas experiências pós-capitalistas e a necessidade de uma emancipação realvi. Na mesma época, Ricardo Antunes desconstruía os discursos que davam adeus ao trabalho e apontava o crescimento, a complexificação e a heterogeneidade da classe-que-vive-do-trabalhovii. Desde então, diante das múltiplas metamorfoses do mundo do trabalho, Antunes analisou o crescimento do setor de serviços, a ascensão de um infoproletariado e as desantropomorfizações contemporâneas do trabalho que, em sua provocação, indicam que o capitalismo de plataforma se assemelha cada vez mais à protoforma do capitalismo. É imperativo, portanto, reinventar um novo modo de vidaviii. Em um sentido convergente, mas novamente por caminhos diversos, um conjunto de diferentes intervenções vêm, ao mesmo tempo, resgatando análises radicais em torno do mundo do trabalho e aprofundando as questões sobre como as acumulações de capitais são inextricáveis às destruições da naturezaix, aos processos de racializaçõesx e generificaçõesxi. O foco aqui também são os diagnósticos sobre a situação contemporânea do capital e a premência das lutas cotidianas, não perdendo de vista o horizonte de uma necessária superação radical do capitalismo, impulsionada pela classe trabalhadora. Investigar sem ilusões as misérias de nossos tempos, sem ser tragado por seu realismo estreito e cada dia mais absurdo, é uma tarefa difícil, mas imprescindível neste momento em que as crises do capital chegam ao paroxismo. Daí a importância de Automação e o futuro do trabalho como instrumento de reflexão e luta contra o capital, para a construção de economias, tecnologias e formas de vida comunais. Notasi Robert Brenner, The Economics of Global Turbulence: the Advanced Capitalist Economies from Long Boom to Long Downturn, 1945-2005 (Londres, Verso, 2006) [ed. esp.: La economia de la turbulencia global, trad. Juan Mari Madariaga, Madri, Akal, 2009], e The Boom and the Bubble: the US in the World Economy (Londres, Verso, 2002) [ed. bras.: O boom e a bolha: os Estados Unidos na economia mundial, trad. Zaida Maldonado, Rio de Janeiro, Record, 2003]. ii Idem, “What Is Good for Goldman Sachs Is Good for America: the Origins of the Present Crisis”, Ucla: Center for Social Theory and Comparative History, 2 out. 2009; disponível on-line. Mais recentemente, Dylan Riley e Robert Brenner radicalizaram as consequências da tese do longo declínio ao caracterizar o regime de acumulação estadunidense como o de um “capitalismo político”, no qual “o poder político bruto, e não o investimento produtivo, é o principal fator determinante da taxa de rentabilidade”. Dylan Riley e Robert Brenner, “Seven Theses on American Politics”, New Left Review, v. 138, nov.-dez. 2022; disponível on-line. iii Nick Srnicek, Platform Capitalism (Cambridge, Polity, 2017) [ed. arg.: Capitalismo de plataformas, trad. Aldo Giacometti, Buenos Aires, Caja Negra, 2018]. iv Para uma crítica ao aceleracionismo de Srnicek e de Alex Williams desde um ponto de vista ecossocialista, que dialoga com a perspectiva de Benanav, ver Kohei Saito, Marx in the anthropocene: towards the idea of degrowth communism (Cambridge, Cambridge University Press, 2022). v Aaron Benanav, “A Dissipating Glut?”, New Left Review, v. 140-1, mar.-jun. 2023; disponível on-line. vi István Mészáros, Para além do capital: rumo a uma teoria da transição (trad. Paulo Cezar Castanheira e Sérgio Lessa, 1. ed. rev., São Paulo, Boitempo, 2011). vii Ricardo Antunes, Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho (São Paulo, Cortez, 1995). viii Idem, O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital (São Paulo, Boitempo, 2020), “Trabalho e (des)valor no capitalismo de plataforma: três teses sobre a nova era de desantropomorfização do trabalho”, em idem (org.), Icebergs à deriva: o trabalho nas plataformas digitais (São Paulo, Boitempo, 2023), e Capitalismo pandêmico (São Paulo, Boitempo, 2022). ix Ver, por exemplo, Kohei Saito, O ecossocialismo de Karl Marx: capitalismo, natureza e a crítica inacabada à economia política (trad. Pedro Davoglio, São Paulo, Boitempo, 2021), Laura Luedy (org.), Tempo fechado: capitalismo e colapso ecológico (São Paulo, Boitempo, 2025), e Maria Orlanda Pinassi e Isabella di Guastalla, “A solidão indígena no mundo-inferno da Amazônia”, Margem Esquerda, n. 39, 2o sem. 2022, p. 82-95. x Dentre as diversas intervenções, ver W. E. B. Du Bois, A reconstrução negra na América (trad. Murillo van der Laan, São Paulo, Boitempo, no prelo), Márcio Farias, Clóvis Moura e o Brasil (2. ed., São Paulo, Dandara, 2024), e Ruy Braga, A angústia do precariado: trabalho e solidariedade no capitalismo racial (São Paulo, Boitempo, 2023). xi Lise Vogel, Marxismo e a opressão às mulheres: rumo a uma teoria unitária (trad. Grupo de Estudos sobre Teoria da Reprodução Social, São Paulo, Expressão Popular, 2022), Lívia Moraes, Mariana Roncato e Arelys Borrego, A revolução será feminista! Aporte para lutas estratégicas da classe trabalhadora contra o capital (Marília, Lutas Anticapital, 2023), Tábata Berg, O ser social à luz da ser-outra (Campinas, Ofícios Terrestres, 2024), e Cláudia Mazzei Nogueira, O trabalho duplicado: a divisão sexual no trabalho e na reprodução (São Paulo, Expressão Popular, 2006). | A A |
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