JOÃO ABREU Colunista de Politica


 





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Pós-Bolsonaro: quais os rumos da direita?

Prisão de Bolsonaro obriga governadores a reavaliar planos, embaralha pré-candidaturas e aciona o instinto de sobrevivência da base parlamentar bolsonarista. Oposição terá mais a ganhar se afastando ou pintando o ex-presidente de mártir?

A prisão preventiva de Jair Bolsonaro (PL) no final de semana deixou o horizonte do campo da direita/extrema direita ainda mais nebuloso. Se o ex-presidente já vinha perdendo centralidade no debate público, com o esfriamento da pauta da anistia no Legislativo, agora uma eventual união a seu nome ou contar com seu apoio pode ser uma vinculação tóxica que impediria uma vitória de um aliado em um eventual segundo turno das eleições presidenciais, prejudicando também candidatos em disputas acirradas a governo do estado e mesmo ao Senado.

Os governadores que pleiteiam um lugar na corrida pelo Planalto, Ratinho Jr. (PR), Romeu Zema (MG), Ronaldo Caiado (GO) e Tarcísio de Freitas (SP) publicaram, em suas redes sociais, mensagens de solidariedade a Bolsonaro na manhã do sábado (22), depois de anunciada a sua prisão. Contudo, após o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes ter levantado o sigilo de um vídeo no qual aparece a tornozeleira danificada, com a voz do ex-presidente admitindo ter usado um ferro de solda para violar o aparelho, nenhum deles postou qualquer mensagem sobre o assunto até o início da tarde desta segunda-feira (24).

Com bom trânsito na mídia tradicional, Tarcísio fez uso dela para que fosse divulgada uma versão de um suposto esforço seu junto a interlocutores no STF para que a preventiva fosse transformada novamente em domiciliar. Trata-se da reiterada tentativa do governador paulista de manter a imagem de moderação a possíveis eleitores menos radicais, ao mesmo tempo em que corteja o bolsonarismo em sua versão mais obtusa, uma massa essencial para alavancar sua candidatura presidencial. Contudo, após seus ataques a Moraes em um não muito distante 7 de setembro, é pouco crível que qualquer tentativa sua em relação à Corte lograsse êxito.


Embora alguns acreditem que o nome de Tarcísio ganhe força com a prisão do ex-mandatário, já que a convocação de uma “vigília” por parte do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), um dos fatores mencionados na decretação da prisão preventiva como uma de suas justificativas, prejudicaria as pretensões presidenciais do parlamentar, o fato é que o lançamento de um possível candidato à presidência com o sobrenome da família praticamente inviabilizaria o pleito do governador paulista. Ele mesmo já reiterou que não concorreria sem o aval de seu ex-chefe, que o lançou à política. A pecha de “traidor” é mortal para carreiras políticas e o exemplo de figuras egressas do movimento bolsonarista mostra o destino pouco glorioso de alguns “arrependidos”.

Na sexta-feira (21), às vésperas da prisão do pai, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) voltou a colocar o governador de São Paulo sob uma espécie de tutela do ex-presidente, em entrevista concedida ao site Jota. “Tem muita gente que não é de São Paulo e não conhece o Tarcísio. Ele tem seus méritos e tem seus defeitos. Mas eu acho que não seria natural a candidatura dele, porque ele é uma pessoa muito forte em São Paulo e tem uma reeleição para governador garantida”, disse o parlamentar. “Ele não tem essa ânsia de se tornar presidente. Mas Tarcísio depende do apoio de Jair Bolsonaro, porque ainda não se fez uma liderança nacional.”

Preso e desmoralizado pela tentativa grotesca de danificar a tornozeleira, Bolsonaro estaria obrigado a lançar alguém da sua família para preservar o seu capital político que míngua cada vez mais, vide a presença de apoiadores nas manifestações do segmento. Neste cenário, é provável que Tarcísio não concorra, mas a arena se abre para os outros postulantes da direita que já não contavam com o aval do ex-presidente.

“Prévias” da direita

Assim, com o lançamento de um Bolsonaro para a disputa do Planalto, o cenário poderia ter três ou quatro candidatos deste campo com algum grau de competitividade. É nisso que acredita, por exemplo, o cientista político Antonio Lavareda, em entrevista ao jornal Valor Econômico.

Nas eleições do país andino, foram quatro candidaturas gravitando entre a direita e a extrema direita, com José Antonio Kast indo para o segundo turno e se tornando o favorito para derrotar a primeira colocada, a comunista Jeannette Jara, por agregar a maioria dos votos contrários ao governo de Gabriel Boric e à esquerda em geral.

Mas se no Chile o atual governo tem baixa popularidade, prejudicando sua presidenciável, no Brasil é o bolsonarismo que carrega a maior rejeição. Em pesquisa divulgada em 18 de setembro, a Quaest mostrava que o nome do ex-presidente era rejeitado por 64% dos entrevistados, o que traz uma outra realidade dura para os postulantes da direita: qualquer relação com o ex-presidente teria o poder de macular candidaturas para quase dois terços do eleitorado. O percentual, inclusive, pode ser ainda pior com a repercussão do constrangedor episódio da tornozeleira.


“A direita já se organizou para uma disputa sem aval de Bolsonaro”, pontua ao Valor o diretor da Quaest, Felipe Nunes. “Um embate do bolsonarismo com terceiras vias frágeis tende a repetir a polarização de 2022, mas aí abrindo espaço para uma vitória de Lula no primeiro turno, em função da alta rejeição”, avalia.

Mudança de estratégia

Diante da prisão do ex-presidente, sua base na política institucional também pode mudar sua estratégia. No Parlamento, o vice-presidente da Câmara, deputado Altineu Côrtes (PL-RJ), disse que a confirmação da preventiva pela Primeira Turma do STF terá impacto no andamento dos trabalhos do Legislativo, mas não disse qual. Além de uma eventual retomada da pressão para desengavetar o projeto de lei da anistia aos condenados pelo 8 de Janeiro, que teria possibilidade de se estender a Bolsonaro, provavelmente a base parlamentar extremista ainda não sabe o que fazer.

Ao que parece, pelo menos já sabe o que não fazer. O deputado federal Zé Trovão (PL-SC) publicou um vídeo em suas redes sociais no sábado convocando caminhoneiros, motoboys e representantes do agronegócio para irem às ruas protestar contra a prisão. Contudo, segundo matéria do Uol, foi orientado a apagar para não ter problemas judiciais.

A mesma reportagem aponta que uma eventual obstrução na Câmara dos Deputados é considerada inútil por deputados do PL, já que não haveria número suficiente para brecar os trabalhos na Casa. E voltar à tática de ocupação das Mesas Diretoras da Câmara e do Senado também seria uma hipótese descartada, pois a perspectiva de punição, em especial por parte do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), seria alta, ainda mais levando-se em conta que sua imagem saiu arranhada do episódio anterior.

Além de evitar um enfrentamento com o Poder Judiciário, os parlamentares estão obviamente de olho nas eleições de 2026. Não querem correr o risco de ter suas candidaturas inviabilizadas judicialmente ou afastar possíveis eleitores de centro ou de uma direita menos extremista, um interesse especial principalmente daqueles que pretendem concorrer a governos de estado ou ao Senado, conforme o contexto.

“Se a prisão de Bolsonaro levar a uma radicalização ainda maior das posições do bolsonarismo, sobretudo no que diz respeito à democracia, o movimento se tornará insustentável para setores da direita que pretendem se manter no jogo político-eleitoral. Uma ‘martirização’ de Bolsonaro, sem radicalização, pode ser o caminho para manter a direita unida diante das eleições do próximo ano”, analisa o cientista político Guilherme Casarões, um dos coordenadores do Observatório da Extrema Direita, em entrevista ao jornal O Globo.

Ainda sem rumo, a perspectiva para a direita nas eleições presidenciais é de um cenário fragmentado, onde a divisão não vai se dar apenas no número de candidatos, mas também na postura que cada um terá em relação a Jair Bolsonaro. A conta de ter o nome associado ao do ex-presidente vem ficando cada vez mais alta e desvantajosa e a tentativa de salvar a imagem do ex-presidente para sua base, por meio do processo de “martirização”, já está em curso. O engajamento nesta “causa” deve ser determinante para a pretensão dos atores políticos em 2026.

A esquerda tem possibilidade de avançar nesse cenário, aproveitando a fragilidade da direita e sua desmobilização, com o governo tendo a oportunidade de pautar debates importantes do ponto de vista político como o fim da jornada 6×1 e mesmo a tarifa zero, inserida em um panorama mais amplo da necessidade de melhora do transporte público no Brasil. Embora o momento atual aponte inclusive para a chance de uma eleição liquidada no primeiro turno, a distância das eleições não permite ao campo progressista “jogar parado”. Mobilizar é preciso.

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França: a Alternativa Mélenchon

Governo Macron é um morto-vivo, mas velhas mídias só veem opção de poder na ultradireita. Por que considerar a França Insubmissa? Sua proposta: povo contra a oligarquia! Suas polêmicas com a esquerda tradicional seu projeto “coletivista”

Entrevista a Walden Bello, no Counterpunch | Tradução: Antonio Martins

Nos nove anos desde sua fundação em 2016, o partido A França Insubmissa [La France Insoumise, ou LFI) tornou-se a principal formação de esquerda na França. Sua atual representação, de 71 parlamentares, coloca-a à frente dos partidos tradicionais da esquerda – o Partido Socialista e o Partido Comunista. A personalidade mais identificada com a LFI é Jean-Luc Mélenchon, que concorreu à presidência três vezes – a última em 2022, quando obteve 21,9% dos votos, terminando em terceiro lugar, logo após a segunda colocada Marine Le Pen, da Reunião Nacional (Rassemblement National), e Emmanuel Macron. O La France Insoumise descreve sua orientação como socialista democrática e ecossocialista.

A seguir, uma entrevista composta. Quando visitou Paris em julho de 2025, Walden Bello entrevistou alguns dos líderes do LFI, incluindo Nadège Abomangoli, vice-presidente da Assembleia Nacional; Aurélie Trouvé, presidente do Comitê de Assuntos Econômicos da Assembleia; e os deputados Arnaud Le Gall, Aurélien Taché e Aurélien Saintoul. Seguiu-se, em setembro de 2025, por uma entrevista por e-mail com Jean-Luc Mélenchon (JLM).


I. A Crise do Macronismo

Vocês podem reportar a avaliação que fazem sobre a situação política atual na França?

La France Insoumise: Em termos de situação estratégica, estamos vivendo o fim do macronismo. Os macronistas estão muito divididos e, em seu desespero, estão se aliando à extrema direita.

Vamos começar apontando que no ano passado, quando a Reunião Nacional venceu as eleições para o Parlamento Europeu, Macron estava disposto a fazer um acordo com eles. Esse era o plano, que não se concretizou.

Mas mesmo que não tenha acontecido, a realidade é que o macronismo já absorveu muito da ideologia e dos slogans da extrema direita. Os macronistas estão em uma aliança com a extrema direita no governo atual. Os Republicanos, o partido de direita tradicional, está mais do que nunca posicionado ao lado da extrema direita. O novo chefe deste partido, um homem chamado Bruno Retailleau, é agora ministro do interior e, portanto, da polícia. Em uma reunião, ele disse: “Abaixo o véu”. Como você sabe, este é um slogan da extrema direita. Além disso, durante a guerra colonial na Argélia, a comunidade colonial francesa também gritava “Abaixo o véu”, visando mulheres muçulmanas. É algo muito antigo, mas ao mesmo tempo muito preocupante dada a situação atual. A islamofobia representa uma ameaça muito real, na medida em que fornece a cola ideológica de todas as forças de direita em nosso país.

II. Os protestos populares e a esquerda

Quais os principais desafios que a esquerda enfrenta neste momento?

Jean-Luc Mélenchon: Os capitalistas estão se apoiando na extrema direita. Você sabe por quê? Porque há uma intensa mobilização social contra as decisões decorrentes do programa neoliberal. Há uma atmosfera pré-revolucionária na França, como admitem os próprios analistas favoráveis aos que estão no poder. Na verdade, em todo o mundo, há muitos anos, há situações revolucionárias. Chamamos esses eventos de “revoluções cidadãs”. Em meu livro Now the People [Agora o Povo, disponível também em castelhano], tento analisá-las, incluindo as condições que as produzem. Essa situação é o que tem preocupado Macron e o establishment.

Na França, houve um movimento dos coletes amarelos. No início, a esquerda tradicional não os apoiou. Dizia-se que eram fascistas. Só 10 dias após o seu início, a esquerda, os sindicatos e o movimento alterglobalização fizeram uma declaração dizendo que os apoiamos. Ocorre que uma nova linha de conflito estava surgindo: não esquerda versus direita, mas a oligarquia versus o povo.

Como você sabe, houve protestos enormes em 2005 e 2023. O caráter foi diferente. Os de 2005 ocorreram nos subúrbios das grandes cidades. Os de 2023 ocorreram também em cidades menores. Eram pessoas muito jovens. Alguns sociólogos disseram que os protestos de 2005 e 2023 tinham as mesmas causas, mas achamos que os protestos de 2023 foram diferentes. As pessoas que participavam deles eram muito jovens e viviam profundamente aquilo contra o quê lutavam, incluindo o direito da polícia de matá-los, a licença para matar, especialmente jovens homens árabes.

Não havia um porta-voz, mas estava claro contra o que era. Era uma reação a uma execução extrajudicial. E a polarização foi mais acentuada em 2023, em parte devido às mídias sociais. Houve essa explosão de raiva da direita em reação aos protestos, com algumas pessoas expressando que era certo a polícia matar esses jovens homens árabes e negros.

III. Capitalismo e Racismo

Os protestos de 2023 também estavam ligados a questões econômicas?


LFI: Sim, estavam, e apontamos que os eventos foram causados por políticas neoliberais.
Foram as respostas das pessoas ao impacto do neoliberalismo em sua existência concreta. Todos os outros partidos os chamaram de distúrbios. Nós não. O termo usado era muito importante para nós. Aqueles que são vítimas do racismo também devem ser vistos como vítimas do capitalismo. São pessoas totalmente exploradas pelo capitalismo. Portanto, ao contrário da posição do chefe do Partido Comunista e de alguns no Partido Socialista, não se pode separar a luta contra o racismo da luta contra o capitalismo.

Precisamos enfatizar isso, que o racismo não é apenas uma questão moral. Ele está ligado à economia. Por exemplo, dizem que só temos uma certa riqueza para dividir, e dividi-la com migrantes prejudicará nosso próprio povo. Isso serve para dividir as pessoas. Você começa com os migrantes, depois diz que os brancos pobres também devem ser excluídos, e assim por diante. Os macronistas estão tentando normalizar essa divisão promovida pela extrema direita. Eles acham desejável enquadrá-la dessa forma. É o que começaram a fazer em Mayotte [arquipélago africano sob domínio colonial francês, situado entre Moçambique e a ilha de Madagascar], para destruir os direitos dos migrantes. Depois, trarão essa ideia para a França. Mayotte e outros territórios ultramarinos da França estão servindo como laboratórios.

Mas também há esforços semelhantes em muitos lugares, como os subúrbios ao redor de Marselha, onde a Reunião Nacional, o partido de Marine Le Pen, exerce alguma influência. Eles estão criando muitos estados de exceção. Por exemplo, há agora um projeto de lei, apresentado pela Reunião Nacional, para colocar qualquer estrangeiro preso na cadeia por pelo menos 200 dias se ele já tiver sido condenado e sentenciado anteriormente. Isso é uma clara violação dos direitos básicos: você não pode colocar ninguém na cadeia se ele não foi condenado e sentenciado. Oitenta e cinco por cento das novas leis em um ano são patrocinadas ou apoiadas pela Reunião Nacional.

Gostaríamos de acrescentar que também estamos tentando criar um novo anti-racismo. Um problema que enfrentamos é que, no passado, o anti-racismo foi usado como arma pelos socialistas quando estavam no poder para perseguir seus inimigos. Por isso, as pessoas agora estão muito, muito desconfiadas do anti-racismo, especialmente se aqueles que o defendem são homens brancos com agendas políticas.

Também estamos combatendo novas formas de racismo, como a alegação de que pessoas não brancas estão se infiltrando na sociedade e no governo para obter altos cargos, e o fazem por meio de vantagens especiais oferecidas pelo Estado. Isso é estranho porque, no passado, a crítica deles era que os muçulmanos não queriam se integrar. Mas agora, quando algumas pessoas não brancas conseguem altos cargos, como Nadège Abomangoli, que é vice-presidente da Assembleia Nacional, eles dizem que isso é devido a benefícios especiais de que desfrutam.

Vocês não veem em outros setores da esquerda solidariedade ou desejo de compreendem a situação dos migrantes?

LFI: Isso não é novidade para os líderes comunistas porque, há 40 anos, eles já diziam que havia um problema com os imigrantes. Mas nossas diferenças com o Partido Comunista vão além da simples classificação dos protestos como distúrbios. Relacionam-se a diferentes visões de sociedade. A resposta à questão sobre quem faz parte do povo evolui com o tempo. O Partido Comunista envelheceu por prender-se a uma visão obsoleta de quem são os “povos revolucionários”. A classe trabalhadora evoluiu de tal modo que árabes e outras comunidades não brancas são agora a maioria em muitos setores da classe trabalhadora. Você pode ver isso nos hospitais, onde a própria maioria dos médicos não é branca. Portanto, é muito importante lutar contra o racismo, porque, se não o fizer, você permite que o povo e a classe trabalhadora sejam divididos.

IV. A Esquerda Dividida

Mudando para um tópico relacionado, você pode me dizer qual é o estado da esquerda na França?

LFI: Pode-se dizer que, sem o France Insoumise, não haveria mais uma esquerda viável na França. Há, é claro, outros partidos, como o Partido Socialista. Mas ele não enfrenta os muitos desafios no país. Não combate o racismo com a força que deveria. Especificamente, o PS está dividido. Não tem uma agenda, um programa. E a única questão para eles é saber como ganhar cadeiras parlamentares, e se devem ou não se aliar ao LFI. É uma situação difícil, mas devemos seguir em frente mesmo que sejamos acusados de divisionismo. Em termos de situação estratégica, confrontamos o macronismo, que está muito dividido porque vive seu ocaso, e há a extrema direita. Claro, como em muitos outros países, você tem a mídia, que é dominada por bilionários que favorecem muito uma vitória da extrema direita.

Os socialistas não querem uma aliança com o LFI?

LFI: Os socialistas estão divididos em dois grupos. Um grupo não quer uma aliança conosco sob nenhuma circunstância. O outro grupo não quer uma aliança, mas a aceitaria em certas situações. No entanto, eles estão focados em obter o apoio dos eleitores que apoiam Macron nas próximas eleições e, como acham que uma aliança afastaria esses eleitores, não pensam em uma aliança conosco no momento. Mas não se perguntam se os eleitores continuariam a votar neles no segundo turno das eleições. Sua estratégia é típica do desejo de colocar o povo de volta sob a autoridade da pequena burguesia, por medo da extrema direita.

Para nós, a busca empreendida pelos socialistas, de votos entre os eleitores de Macron, é uma ilusão, já que os macronistas são principalmente conservadores e não apoiariam socialistas ou social-democratas, ainda que parte da mídia agrupe os Socialistas e os Macronistas no mesmo bloco. Mas, dado seu projeto, os socialistas tentam ao máximo se distinguir de nós. Por exemplo, quando se trata da situação em Gaza, eles ainda não querem usar a palavra “genocídio”. Então, dizem que estamos apoiando o Hamas e o terrorismo. O que mais a extrema direita poderia pedir? É um presente para eles. O partido da direita estabelecida, os Republicanos, chegou a pedir uma investigação parlamentar sobre nossos alegados vínculos com grupos terroristas. Estamos enfrentando uma verdadeira demonização. Eles têm esse rótulo para nós, chamando-nos de “Islamo-Marxistas”. Usam esses rótulos para assustar as pessoas e dividi-las diante da crise do neoliberalismo. Mas, por enquanto, eles são os mais desacreditados quando se trata da opinião pública. Seu oportunismo enoja as pessoas comuns.

V. Centro e Direita divididos

Haverá eleições presidenciais em 2027. Você acha que a esquerda será capaz de se unir para disputá-las de forma eficaz?

LFI: Em outras circunstâncias, as coisas seriam favoráveis à esquerda. Os macronistas estão muito divididos. Se você observar quem votou em Macron em 2017 e quem votou em 2023, verá uma grande diferença. Em 2017, seus votos vieram principalmente de eleitores mais velhos e centristas. Em 2023, eles vieram de eleitores mais jovens que podem ser descritos não tanto como centristas, mas como pessoas interessadas em modernizar o conservadorismo. Não há mais ninguém que possa unir esses dois grupos. Macron está proibido por lei de concorrer novamente. Agora está claro que o macronismo foi um fenômeno único. A maioria dos macronistas agora é a favor de se aliar à extrema direita.

A direita e a extrema direita também estão divididas. Há Bruno Retailleau, o líder dos Republicanos, o partido conservador tradicional. Há a Reunião Nacional de Marine Le Pen. Como ela foi condenada, junto com outros líderes de seu partido, por desvio de fundos, está proibida de concorrer a cargos públicos. Seu protegido, Jordan Bardella, concorrerá em seu lugar. Mas Bardella não é crível, tem um baixo nível cultural, é muito jovem, bastante preguiçoso e muito inexperiente em comparação com Retailleau, que ocupou muitos cargos e tem proferido a mesma retórica nos últimos 40 anos. Entre Bardella e Retailleau, o grande capital provavelmente favoreceria Retailleau.

Estamos abertos a conversar com os socialistas, mas os socialistas estão iludidos, buscando os macronistas. Os Verdes, Socialistas e Comunistas estão conversando sobre uma aliança eleitoral entre si, e a única coisa que os une é evitar conversar com a France Insoumise. Mas, dado o fato de que cada um deles está interessado em aumentar seu número de cadeiras, o que só pode acontecer às custas dos outros, essas conversas não irão muito longe.


VI. Coletivismo: Programa e Visão da França Insubmissa

Supondo que você seja candidato à presidência em 2027, quais seriam os elementos-chave do seu programa?

JLM: Sim, haverá uma candidatura Insoumise. Teremos um candidato para sustentar nosso programa “L’Avenir en commun” (O Futuro em Comum). O programa vem da própria sociedade: associações, sindicatos, coletivos, cientistas. São 831 medidas para construir uma Nova França, rompendo com a ordem capitalista. Essas medidas são constantemente atualizadas, orçamentadas e detalhadas em cadernos de programa. Elas propõem partir das necessidades da própria sociedade, para fazer emergir um novo povo.

Para romper com os maus tratos neoliberais e afastar o produtivismo, estabeleceremos a “regra verde”: não tirar da natureza mais do que ela é capaz de regenerar por si mesma. Propomos proteger os bens comuns e o que chamamos de direitos das espécies. O direito ao silêncio, à alimentação saudável, a respirar ar limpo e a beber água que não envenene. Essas medidas estão no cerne de nosso programa, para transformar profundamente a sociedade e construir relações harmônicas entre os seres humanos e com a natureza. Elas também têm uma aplicação concreta para orientar a economia, substituindo as lógicas de mercado pelas do planejamento ecológico. Esse método possibilitará a implementação de grandes projetos em habitação, energia, agricultura e indústria. Milhares de empregos serão criados.

“L’Avenir en commun”, nosso programa, é também uma ruptura com o plano de ação do governo e a monarquia presidencial. É por isso que passaremos à Sexta República, com medidas que permitam a intervenção popular, como o referendo revogatório para qualquer cargo eletivo ou o referendo por iniciativa cidadã. Nos últimos anos, nosso país foi marcado por poderosas expressões do autoritarismo da Quinta República, como foi o caso do aumento da idade da aposentadoria para 64 anos, sem votação na Assembleia Nacional e apesar de uma mobilização popular histórica. Restauraremos a aposentadoria aos 60 anos, para que todos possam recuperar o controle sobre seu tempo livre.

Você pode descrever o tipo de socialismo que propõe para a França?

JLM: Prefiro falar de coletivismo. Não se trata apenas de resolver a questão social, mas também de abordar a questão do interesse humano geral e dos direitos dos seres vivos, que formam um coletivo sistêmico.

Um novo mundo está surgindo: um povo urbano, organizado em redes. Essa nova França já existe em si mesma, seu povo definido por seu conflito de interesses com a oligarquia. Ela se apropriou das redes coletivas das quais a vida cotidiana depende. Pensamos que este mundo está chegando ao fim e que apenas dois resultados são possíveis: o coletivismo ou a lei do mais forte.

Tomemos o caso da mudança climática, que é inevitável e irreversível. Como reagimos, como propomos soluções coletivistas? A escolha do individualismo, da lei do mais forte, significa deixar milhares de pessoas serem envenenadas por produtos químicos eternos, apenas para manter o ciclo do dinheiro girando. Significa deixar de planejar para impedir que mega-incêndios queimem tudo, porque os orçamentos foram cortados.

A lei do mais forte se expressa quando não há mais uma lógica de progresso coletivo. Quando um em cada dois franceses é obeso ou está acima do peso, quando a mortalidade infantil está aumentando há 10 anos, quando uma em cada quatro mães cria seus filhos sozinha. Quando as fortunas dos bilionários dobraram desde que Macron se tornou presidente.

O coletivismo não é uma utopia, mas uma necessidade. Compreender o momento significa assumir o controle sobre os processos, sermos mestres da situação. O beco sem saída do sistema capitalista pode ser uma boa notícia, uma oportunidade para paralisá-lo, para levá-lo aos seus limites. Cada um de nós é responsável pelo resultado que daremos a essa ruptura.

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