MARCELO DE SOUZA Colunista de Internacional






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Gaza: o perigosíssimo “Plano de Paz” da ONU

Notas sobre a proposta que o Conselho de Segurança estranhamente aprovou. Israel assume, na prática, 53% da Faixa. Ninguém reconstruirá a área devastada que restou aos palestinos. Hamas e AP são marginalizados. Que nome dar a isso?

Por Sari Bashi | Tradução: Antonio Martins

Em 17 de novembro, o Conselho de Segurança da ONU endossou o plano de paz do presidente Donald Trump para Gaza, que cria uma “Comissão da Paz”, presidida por ele e com a participação de líderes estrangeiros, incluindo o ex-primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair, para supervisionar a governança do território. Trump saudou a aprovação como “um momento de proporções históricas” e um prenúncio de “mais paz por todo o mundo”. O plano, que está anexo à resolução da ONU, marginaliza a Autoridade Palestina, rejeita a governança do Hamas e promete “empregos, oportunidades e esperança” para os palestinos em Gaza; também afirma seu direito de escolher entre ficar ou sair, e o direito daqueles que deixaram Gaza de retornar.

Mas, na realidade, ao colocar a possibilidade de reconstruir casas e infraestrutura civil fora do alcance de muitos palestinos em Gaza, o plano pode tornar impossível que eles permaneçam. O cerne da questão é uma exigência, agora codificada na resolução do Conselho de Segurança, de que o Hamas e outros grupos armados palestinos abandonem suas armas. Se eles se recusarem – como têm feito até hoje, dado seu compromisso de décadas com a luta armada – a resolução da ONU permite que o exército israelense mantenha o controle direto sobre uma área que chama de “perímetro de segurança”.


É uma escolha estranha de palavras. A área em questão atualmente corresponde a 53% do território, cobrindo não apenas toda a sua fronteira com Israel, mas estendendo-se profundamente no interior, e incluindo a maior parte de suas terras cultiváveis e zonas industriais. Embora a resolução exija que o exército israelense se retire progressivamente de Gaza, ela vincula essa retirada à desmilitarização palestina, não estabelece um cronograma e permite que Israel mantenha um perímetro de segurança “até que Gaza esteja devidamente segura contra qualquer ameaça ressurgente de terror”. Ela aprova a criação de uma Força Internacional de Estabilização para supervisionar o desarmamento em estreita cooperação com Israel e Egito. Mas se o exército israelense não conseguiu desarmar o Hamas em dois anos de guerra intensa, é improvável que forças estrangeiras tentem fazê-lo. Em outras palavras, sem um plano crível para a desmilitarização palestina, parece muito provável que a presença de tropas israelenses na maior parte de Gaza se torne permanente.

Isso é especialmente desastroso para os palestinos, porque o plano abandona a reconstrução nas áreas ainda controladas pelo Hamas. Enquanto isso, autoridades norte-americanas, segundo relatos, estão avançando com planos de construção de moradias na área leste, que o exército israelense controla diretamente, além da chamada Linha Amarela. Autoridades israelenses recentemente começaram a demarcar essa linha com blocos de concreto pintados e mataram palestinos, incluindo crianças, que a cruzaram. A terra depois dela provavelmente permanecerá proibida para quase todos os dois milhões de residentes de Gaza, que estão concentrados mais próximos do mar, na área da qual o exército israelense se retirou como parte do cessar-fogo que entrou em vigor em 10 de outubro.

A necessidade de reconstrução não poderia ser mais urgente. Imagens de satélite mostram que 81% das estruturas de Gaza foram danificadas ou destruídas; a maioria dos palestinos lá não tem mais seus lares. Embora as leis da guerra proíbam a destruição controlada de infraestrutura civil, exceto sob condições restritas de necessidade militar, o exército israelense conduziu demolições planejadas em grande escala, arrasando bairros inteiros em ambos os lados da Linha Amarela, frequentemente com a ajuda de empresas privadas, cuja remuneração estava vinculada ao número e ao tamanho das estruturas que destruíam. (O exército israelense afirma que as demolições foram justificadas por estar destruindo “infraestrutura terrorista”.) A resolução da ONU pede tanto o apoio do Banco Mundial quanto a criação de um fundo multinacional para custear o reparo desse nível quase incompreensível de devastação, e o Egito planeja sediar uma reunião de países doadores, provavelmente da Europa e do Golfo, para arrecadar fundos. Mas, como os materiais de construção não podem entrar em Gaza sem permissão israelense, o plano endossado pela ONU garante, efetivamente, que será impossível reconstruir de forma que beneficie a vasta maioria dos palestinos.

O que isso significa na prática é que, embora o governo israelense tenha suavizado seus apelos pela “emigração voluntária” dos residentes de Gaza, e embora o plano Trump afirme o direito das pessoas em Gaza de ficar, os palestinos terão dificuldade para permanecer mesmo nos 47% de Gaza ainda acessíveis a eles. Isso pode muito bem ser, de fato, exatamente o que os atuais planos de reconstrução visam alcançar.

* * *

Esta não seria a primeira vez que as autoridades israelenses tomam terras de Gaza sob o pretexto de precisar de um perímetro de segurança. A Faixa de Gaza, hoje um enclave de 363 km² [uma área equivalente a um quarto do município de São Paulo] rodeada por muros, cercas e o mar, foi criada em 1948, depois de as autoridades israelenses estabelecerem um estado judeu na maior parte da Palestina, “limpando etnicamente” as áreas que controlavam e expulsando cerca 750 mil palestinos. Aproximadamente 200 mil  desses refugiados chegaram a Gaza, transformando o território, mesmo antes da guerra mais recente, em um dos lugares mais densamente povoados da Terra.

Em 1949, o Egito, que havia ocupado Gaza, chegou a um acordo com Israel que estabeleceu fronteiras de fato, de acordo com as posições das tropas na época do armistício – a chamada linha verde. Durante a guerra de 1967, no entanto, o exército israelense capturou Gaza e, por fim, estabeleceu lá assentamentos civis, em violação às leis da guerra. Criaram-se no território zonas que eram proibidas para palestinos. O governo israelense “justificou” os assentamentos como necessários para a segurança e, portanto, autorizados pelas leis da guerra.


Em 2005, após o colapso do processo de paz de Oslo e a eclosão da segunda intifada, as autoridades israelenses retiraram tanto as tropas quanto os colonos. E, no entanto, criaram uma “zona-tampão”, estendendo-se entre 100 e 1.500 metros do lado de Gaza da cerca – o que equivalia a 17% da área total remanescente de Gaza e 35% de suas terras cultiváveis restantes. O exército israelense impediu o acesso de palestinos à área próxima à cerca e atirou naqueles que se aproximavam demais.

Cortar mais 190 km² de Gaza deixa seus dois milhões de residentes comprimidos na área mais próxima do litoral e corta o acesso a terras cultiváveis, urgentemente necessárias para a produção de alimentos. Após o extenso bombardeio e destruição planejada dos últimos dois anos, apenas 4% das terras agrícolas de Gaza estão intactas e acessíveis; dois terços delas estão além da Linha Amarela. Mesmo que as autoridades israelenses permitissem que os palestinos reentrassem nessa área, não está claro quantas pessoas estariam dispostas a correr o risco de se colocar em tanta proximidade com um exército que, de acordo com autoridades de saúde palestinas, matou mais de 69 mil pessoas em Gaza desde outubro de 2023 (sem dúvidas, uma enorme subnotificação), incluindo mais de trezentas desde que o cessar-fogo começou.

Com esta terra agora inacessível para os palestinos, devemos perguntar quem se beneficia com a reconstrução que está prevista. Um grupo não fez segredo de seus desígnios para a terra: colonos de direita que, desde o início da guerra, realizaram comícios e eventos familiares e de feriado na fronteira com Gaza, prometendo restabelecer assentamentos judeus, uma aspiração apoiada por ministros de extrema-direita do governo israelense e alguns legisladores do partido governista Likud. (O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, não defendeu o assentamento judeu, mas pediu que os palestinos em Gaza saíssem voluntariamente.) Ao endossar este chamado plano de paz, potências ocidentais, Estados árabes e agora a própria ONU arriscam-se a endossar uma expansão ilegal do projeto de assentamento territorial-maximalista do governo israelense – e deixar dois milhões de palestinos sem um caminho viável para a reconstrução de suas vidas.

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Venezuela: a Europa prostrada

Passividade diante da agressão de Trump custará caro, e não apenas porque a Groenlândia está ameaçada. Continente parece incapaz tanto de defender o direito internacional quanto de atuar como um sujeito autônomo, num tempo de transformações geopolíticas

I. A Venezuela no centro de uma ordem em crise

A crise venezuelana costuma ser apresentada no debate público europeu e norte-americano como um fenômeno isolado, resultado exclusivo de decisões internas, autoritarismo político ou má gestão econômica. Essa leitura, no entanto, ignora deliberadamente o contexto histórico mais amplo no qual a Venezuela se insere: o de uma América Latina sistematicamente tratada como zona de influência estratégica dos Estados Unidos desde o século XIX.

Mais do que uma exceção, a Venezuela constitui um caso exemplar da persistência de práticas imperialistas no continente americano. Sanções econômicas, isolamento diplomático, apoio seletivo a forças oposicionistas e a constante evocação da possibilidade de intervenção militar compõem um repertório já conhecido na história da região. O que distingue o caso venezuelano não é a novidade dos métodos empregados, mas a sua combinação com um cenário internacional marcado pela fragmentação da ordem liberal e pela intensificação das disputas entre grandes potências.

É nesse contexto que a posição da União Europeia merece atenção particular. Ao alinhar-se de forma quase automática à estratégia estadunidense em relação à Venezuela, a UE não apenas reforça dinâmicas que fragilizam o princípio da autodeterminação dos povos, como também expõe a sua própria incapacidade de atuar como um sujeito geopolítico autônomo. Longe de ser um problema distante ou periférico, a crise venezuelana revela contradições centrais da política externa europeia e antecipa dilemas que se manifestam de forma ainda mais aguda em outros conflitos contemporâneos.


II. A União Europeia entre o direito internacional e a subordinação estratégica

A resposta da União Europeia à invasão da Venezuela em 3 de janeiro de 2026 não pode ser compreendida apenas como hesitação diplomática ou prudência institucional. Trata-se de algo mais profundo: a expressão reiterada de uma política externa estruturalmente subordinada aos Estados Unidos, incapaz de sustentar uma leitura coerente e universalista do direito internacional quando os interesses de Washington estão em jogo.

Ao limitar-se a apelos genéricos à contenção, à estabilidade e à solução política, evitando qualificar explicitamente a ação estadunidense como invasão ou agressão, a União Europeia operou uma forma de neutralização discursiva da violência imperial. O direito internacional surge, assim, não como princípio normativo vinculante, mas como recurso retórico seletivo, acionado de acordo com a posição do ator que viola a soberania alheia.

Esse padrão revela um problema estrutural do projeto europeu contemporâneo. Embora frequentemente apresentada como potência normativa, promotora do multilateralismo, da legalidade internacional e da diplomacia, a União Europeia demonstra, nos momentos decisivos, uma incapacidade crônica de sustentar esses princípios contra a principal potência militar do sistema internacional. A invasão da Venezuela torna visível essa contradição: a UE critica regimes periféricos em nome da democracia, mas evita confrontar diretamente a violação armada da soberania quando ela parte do centro imperial.

As declarações de figuras da esquerda europeia, como Catarina Martins, ao condenar a invasão sem ambiguidades, revelam que alternativas políticas existem no interior do espaço europeu. No entanto, o caráter marginal dessas posições no processo decisório evidencia que o problema não é a ausência de crítica, mas a arquitetura política da própria União Europeia, cuja política externa permanece ancorada na lógica atlântica e na dependência estratégica em relação aos Estados Unidos.

III. Groenlândia: o espelho ártico da dependência europeia

A questão da Groenlândia oferece um contraponto decisivo para compreender os limites da soberania europeia. Formalmente vinculada à Dinamarca e, portanto, ao espaço político europeu, a ilha ocupa uma posição estratégica central no Ártico, região cada vez mais disputada em função de rotas marítimas, recursos naturais e projeção militar.

O interesse explícito dos Estados Unidos na Groenlândia — expresso em declarações oficiais, reforço de presença militar e tentativas abertas de ampliar o controle sobre o território — expõe de forma cristalina a assimetria da relação transatlântica. Apesar de se tratar de um território ligado a um Estado-membro da União Europeia, as decisões fundamentais sobre segurança e presença militar são moldadas, na prática, fora da Europa.

A comparação com a Venezuela é reveladora. Em ambos os casos, a soberania aparece como variável negociável. Na América Latina, a violação assume a forma de intervenção armada direta; no Ártico, manifesta-se por meio da naturalização da presença militar estadunidense em território europeu. Em ambos os contextos, a União Europeia demonstra incapacidade de afirmar-se como sujeito político autônomo.


A Groenlândia, longe de ser um caso periférico ou exótico, funciona como espelho da condição europeia. Ela revela que a submissão estratégica não é apenas um problema externo, projetado sobre o Sul Global, mas um elemento constitutivo da própria fragilidade europeia. A incapacidade de defender plenamente a soberania de seus próprios territórios lança dúvidas profundas sobre a viabilidade do projeto europeu como ator geopolítico independente.

IV. Anti-imperialismo como realismo europeu

É nesse ponto que a crítica à União Europeia deve ultrapassar o registro moral e assumir um caráter pedagógico e estratégico. Defender a soberania da Venezuela diante da invasão estadunidense não é apenas um gesto de solidariedade internacionalista ou coerência ideológica. Trata-se, para a Europa, de uma questão de sobrevivência política.

Ao aceitar a normalização da intervenção armada na América Latina, a União Europeia contribui para consolidar uma ordem internacional em que a força substitui o direito e em que a soberania se torna privilégio das grandes potências. Essa mesma lógica, como demonstram os casos da Ucrânia e da Groenlândia, retorna inevitavelmente ao próprio continente europeu, transformando-o em espaço de disputa entre atores externos.

A pergunta que se impõe, portanto, não é se a União Europeia deveria adotar uma postura mais crítica em relação ao imperialismo estadunidense por razões éticas, mas se pode continuar a existir como projeto político relevante mantendo-se subordinada a ele. O alinhamento automático com Washington, longe de garantir segurança, aprofunda a vulnerabilidade europeia num mundo marcado pela competição entre grandes potências e pela erosão das regras multilaterais.

Romper com essa lógica exigiria da União Europeia um gesto político de grande envergadura: reconhecer que a defesa da autodeterminação dos povos (na Venezuela, na América Latina e além) é inseparável da defesa de sua própria autonomia estratégica. Sem isso, o projeto europeu corre o risco de se reduzir a um espaço econômico integrado, mas politicamente tutelado, incapaz de definir seu próprio destino.

Como lembrava Eduardo Galeano, as veias abertas da América Latina não são apenas feridas do passado, mas estruturas vivas do presente. A invasão da Venezuela revela que essas veias continuam a ser exploradas e que a passividade europeia diante desse processo compromete não apenas o Sul Global, mas o futuro da própria Europa.

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A patética opção da Europa pela guerra

O espantalho da “ameaça russa” foi erguido. Assustados, “líderes” europeus triplicam seus orçamentos militares (e desmontam o Estado social). Mas indústria bélica tem muitas bocas – e vorazes. Crônica de um desastre geopolítico anunciado

O texto a seguir integra o número 14 (novembro de 2025) do boletim do Observatório do Século XXI, parceiro editorial de Outras Palavras. A edição pode ser baixada e lida aqui.

Sem que se entre no mérito da questão, a percepção de risco existencial por parte dos estadistas europeus diante da Guerra Russo-Ucraniana vem funcionando como um catalisador geopolítico. Mais do que uma bem ponderada percepção de risco, é a narrativa de ameaça que parece fornecer o combustível para as decisões políticas em torno do rearmamento europeu. A despeito da premissa unionista em torno da comunidade europeia, o alinhamento dos interesses nacionais no bloco quase nunca é simples; e nesse caso, o controle da linguagem, das categorias e do modo pelo qual a ameaça moscovita aparece no discurso político e midiático tem vindo a calhar. Imaginem o tamanho do desafio de legitimar decisões políticas e financeiras armamentistas, altamente impopulares em tempos de paz, quando as atenções estão voltadas para temas imediatamente sensíveis como imigração e taxas de crescimento econômico modestas; imaginem ainda a titânica necessidade de integrar uma estrutura de defesa que, a despeito da presença da Otan, encontra-se fragmentada. Nada como ter os hunos batendo à porta para se tirar um paquiderme da inércia, e essa tem sido a estratégia narrativa de von der Leyen et caterva.

Não se julga aqui o mérito da percepção, mas os resultados esperados da narrativa que se funda nela.


Se em 2014, na Cúpula da Otan, chegou-se a um acordo não-vinculante de elevação do investimento em defesa a 2% do PIB, o início da Guerra Russo-Ucraniana fez transformar uma mera aspiração em uma questão urgente. A publicação de Strategic Compass for Security and Defence — plano de defesa da UE — e diversas resoluções no Parlamento Europeu enquadraram inequivocamente a Rússia como a principal ameaça à segurança continental e justificaram a necessidade de um salto na capacidade de defesa do bloco. Em 2024, já se esperava que 16 Estados-Membros da UE superassem a meta de 2%, e um número crescente de especialistas passou a defender 3% do PIB como um objetivo mais realista diante da “agressão russa”. Na cúpula da Otan deste ano, assumiu-se o compromisso de investimento de 5% do produto interno bruto em defesa até 2035. Em suma, um crescendo.

E Washington tem ajudado decisivamente a transformar a Rússia em mais um desses espectros que, de tempos em tempos, rondam a Europa. Por mais de oito décadas, os Estados Unidos, com sua liderança inconteste sobre a aliança transatlântica, permitiram que muitas nações europeias mantivessem orçamentos de defesa relativamente modestos. Mas quando Trump passa a ameaçar de serem deixados à própria sorte os membros da Otan que falham com seus compromissos de investimento em defesa, o prospecto de tal coisa entra, inevitavelmente, no horizonte do possível. Com o governo norte-americano eliminando qualquer ambiguidade em seu compromisso com a defesa de seus aliados, e declarando de forma explícita que “a Europa tem de pagar mais” por sua própria segurança, surgiu no horizonte um cavalo de batalha pronto a ser cavalgado pelas lideranças europeias, dispostas a convencer o contribuinte de que o esforço de ter mais armas não só vale a pena, como é inevitável.

Mas pode-se bradar aos quatro ventos tudo aquilo que as sensibilidades políticas admitem. Isso não muda fatos que são objetivos, e que estão muito além das palavras de ordem e declarações contundentes. A autonomia militar europeia esbarra em problemas de viabilidade tecnológica e industrial e, principalmente, em uma convergência política menos efetiva do que se poderia imaginar diante do “terror” provocado pelas “hordas do Leste”. Vejamos.

O mercado de defesa europeu é cronicamente fragmentado, diferentemente do norte-americano, bem orgânico e animado por economias de escala. Por conta de interesses soberanos e nacionais, na União Europeia operam múltiplos sistemas de armas dedicados a cumprir as mesmas funções, o que resulta em ineficiências, custos elevados e falta de interoperabilidade. Quatorze diferentes tanques, 15 tipos de obuseiros de 155 mm, 16 diferentes aeronaves de caça e interceptação, 5 modelos de helicópteros de ataque e 29 classes de fragatas e destróieres fazem parte do portfólio das forças de defesa da UE; enquanto os Estados Unidos operam apenas um modelo de tanque, 3 sistemas de obuseiros, 6 modelos de interceptadores/caças, 2 modelos de helicópteros de ataque e 4 classes de fragatas/destróieres. Embora esses dados sejam do ano de 2012, a situação não se alterou significativamente desde então. Cada sistema de armas redundante representa um interesse industrial doméstico protegido em detrimento da interoperabilidade continental. Não há sinais, no médio prazo, de que esses sistemas de armas serão racionalizados em prol de ganhos de eficiência e escala.

A capacidade de produção europeia está muitos graus aquém do necessário para a sustentação de uma guerra de atrito. Por exemplo, apesar do compromisso da UE de fornecer um milhão de projéteis à Ucrânia até março de 2024, a meta foi atingida com nove meses de atraso, evidenciando os gargalos na cadeia produtiva e a lenta adaptação da indústria de um modelo de produção just-in-time para um de just-in-case. A indústria europeia enfrenta ainda dependência estratégica em tecnologias e matérias-primas críticas, como é o caso da nitrocelulose (componente importante para munições), cuja maior parte da oferta provém da China. No setor aeronáutico, a despeito da existência de modelos locais como o Dassault Rafale, o SAAB Gripen e o Eurofighter Typhoon, a Lockheed norte-americana foi escolhida para fornecer a espinha dorsal da força de interceptadores europeus (com seu F-35). Isso gera um paradoxo estratégico peculiar: ao buscar autonomia justamente por desconfiar da postura internacional dos Estados Unidos, a Europa acaba vendo no F-35 (um sistema testado, interoperável e prontamente disponível) a opção de menor risco no curto prazo. O resultado, assim, é o aprofundamento, e não a redução, da dependência tecnológica europeia em relação a Washington.

Mas talvez o ponto mais delicado esteja na viabilidade política e na coesão estratégica entre os membros da UE. Primeiramente, e ao contrário do que se poderia crer, a percepção da ameaça russa não é monolítica na Europa; existe uma dissonância marcante entre as nações do flanco leste da Otan e os países da Europa Ocidental. Para os “frontline states” como Polônia, Finlândia e os países bálticos, a ameaça é entendida como existencial e imediata, informada pela geografia e por uma memória histórica de ocupação soviética. Em contraste, nações geograficamente mais distantes do “front”, como Espanha, Portugal ou mesmo a França, historicamente mantiveram uma postura mais distanciada, focada em ameaças provenientes do flanco sul, como terrorismo e instabilidade no Sahel. É claro que a Guerra Russo-Ucraniana gerou um grau de convergência sem precedentes e um reconhecimento generalizado de risco; mas disso não se pode intuir que esse risco seja sentido com a mesma intensidade. Essa diferença de percepção acaba se traduzindo em debates políticos internos variados sobre a alocação de recursos e o nível de prontidão militar necessário, que se por um lado não comprometem decisivamente a direção que segue o processo de rearmamento, por outro, vêm aumentando seus custos de transação, e reduzindo a velocidade da mudança.

E, se não bastasse, no coração da UE rivalidades históricas são revividas em meio à tensão. A nova postura militar da Alemanha é ambiciosa; parece inequívoco que Berlim pretende assumir a liderança militar da Europa e colocar em prática um abandono relativo de sua indústria manufatureira em benefício de concentrar esforços para a produção de armamento em larga escala. Em Paris, a postura “heróica” alemã diante do terror russo é vista como um desafio ao tradicional protagonismo francês na liderança da defesa europeia. Isso oferece um substancial entrave à integração dos sistemas de armas ao nível continental, à redução dos custos, à construção de uma política de aquisição comum, e aos ganhos em interoperabilidade e eficiência.


É correto afirmar que a convergência de uma ameaça externa existencial e a incerteza sobre a garantia de segurança americana criaram um impulso político sem precedentes. Mas tal fato não parece que tornará o rearmamento europeu um desdobramento inequivocamente bem-sucedido. Para além das questões tecnológicas e econômicas, que por são grandes por si mesmas, o obstáculo mais crítico permanece sendo o político: a defesa coletiva parece esbarrar em prioridades nacionais, diante das quais mesmo orçamentos vultosos e planos industriais ambiciosos resultarão em pouco mais do que uma coleção fragmentada de capacidades militares, incapaz de garantir a soberania estratégica do continente.

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A América Latina vê a Venezuela no espelho

Quais os próximos passos (e dilemas) da resistência bolivariana? Caracas ficará sozinha frente ao acosso dos EUA? Como enfrentar o projeto trumpista de recolonização da região? Seria possível construir uma cooperação entre países latino-americanos que garanta paz e soberania?

Na coletiva em Mar-a-Lago, na Flórida, Donald Trump colheu os louros do ataque do Exército “mais forte e feroz do planeta” à Venezuela — ataque que incluiu o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, tratado por ele como sinônimo da derrubada do governo bolivariano. Sem qualquer constrangimento, desmontou a própria narrativa que ajudara a construir para justificar o crime internacional: o suposto “combate ao narcoterrorismo”, expediente que lhe permitiu agredir arbitrariamente outro país sem aval do Congresso. O objetivo real, deixou claro, é a pilhagem do petróleo venezuelano — tanto que ações da ExxonMobil e da Chevron dispararam!

“Vamos administrar o país até que possamos fazer uma transição segura, adequada e criteriosa”, afirmou, esquivando-se de explicar como isso ocorreria quando questionado pelos jornalistas — talvez já imaginando que, dali em diante, tudo não passaria de um cruzeiro tranquilo pelo Caribe. Mas, bem, não seria a primeira vez que Washington fala em administração temporária, tanto na América Latina quanto no Oriente Médio…

Porém, desta vez, a afirmação soava confusa, para dizer o mínimo: como uma nação pode “administrar” outra sem derrubar suas instituições e sem ocupar militarmente o território estrangeiro — algo que, no caso venezuelano, segundo planejadores de guerra, exigiria o deslocamento de mais de 150 mil soldados estadunidenses para a América do Sul? Nos dias seguintes, Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos e um dos principais arquitetos do acossamento à Venezuela, tratou de relativizar a fala presidencial. Disse que Washington apostará no bloqueio do petróleo para pressionar o país e que ainda seria “prematuro” falar em novas eleições.


Essa retórica virulenta e cronicamente instável da Casa Branca — feita de investidas beligerantes, recuos deslavados, fala grossa e súbitas brechas para negociação, como já se viu na onda de sanções econômicas e nas tratativas com Israel e Rússia no ano passado — confunde analistas ao redor do mundo. O que é blefe, o que é tubo de ensaio e o que é estratégia geopolítica, afinal, quando um presidente atropela o bom-senso, o direito internacional e até as instituições democráticas do próprio país, lançando-se numa cruzada quase fratricida contra o multilateralismo?

Os próximos dias trarão pistas mais claras. Por ora, o que se vê é uma mistura de espetáculo de “estreia” da nova Doutrina de Segurança dos Estados Unidos com a vaidade megalomaníaca de Trump, que devaneia tanto com o Nobel da Paz quanto com o posto de “maior presidente da História”. E a região se pergunta: a Venezuela é um caso isolado — ou o primeiro espelho de uma nova realidade?

A Venezuela esteve no radar de Trump desde que ele pisou na Casa Branca. Parecia-lhe um alvo fácil: agradaria petroleiras e o complexo industrial-militar e, de quebra, lembraria a todos quem manda na América Latina, enviando uma mensagem de intimidação — aos governos locais, atrevidos em reformas e soberania, e a potências como China e Rússia, com investimentos pesados em infraestrutura na região. E teria uma bem-vinda função doméstica, pois demonstrações de força no exterior agitam sua base republicana e o eleitorado nacionalista… 

Psicopatia americana

“Por que não invadimos a Venezuela?”, perguntou Donald Trump a seu Gabinete em 2017, como quem sugere um passeio de fim de semana na América do Sul. Estava em seu primeiro ano na Casa Branca. Invasões, argumentou, haviam dado certo no Panamá — em 1989, quando os Estados Unidos sequestraram o presidente Manuel Noriega e o levaram a julgamento em território estadunidense — e em Granada, em 1983, quando Ronald Reagan justificou a intervenção alegando a necessidade de “proteger 600 estudantes norte-americanos”.

Incrédulos, assessores trataram de dissuadi-lo: uma ação militar poderia sair pela culatra e custar aos Estados Unidos o apoio, duramente conquistado, de líderes latino-americanos contrários ao governo de Nicolás Maduro.

“O presidente diz e pensa muitas coisas diferentes”, justificou, em off e visivelmente constrangido, um assessor. Neste segundo mandato, Trump parece já não contar com vozes minimamente sensatas ao pé do ouvido. Ao contrário: há duas que sopraram, sem pudor, os tambores da guerra contra a Venezuela.


A primeira é a do secretário de Defesa, Pete Hegseth, ex-apresentador da Fox News — um sujeito que não acredita na existência de germes (e, por isso, nunca lava as mãos), conhecido por chocar funcionários do Pentágono pelo amadorismo, acusado de agressão sexual e fanfarrão dedicado a encarnar o modelo de masculinidade vendido pelo MAGA. Quando vieram a público assassinatos extrajudiciais no Mar do Caribe, inclusive de náufragos, correu à tevê para se gabar. Após o sequestro de Maduro, excitou-se publicamente com a “pura coragem e determinação, a galhardia e a glória dos guerreiros norte-americanos”.

A outra voz é a do secretário de Estado, Marco Rubio — o “super-homem” da administração Trump. Anticomunista feroz, filho de cubanos expatriados, sonha em ver a Cuba de seus pais novamente sob tutela de Washington e, por extensão, sua nação-irmã antiimperialista no continente: a Venezuela. Uma ação como a ocorrida no sábado também funciona como palanque ideal para sua base eleitoral na Flórida, composta por cubanos e venezuelanos “em fuga de ditaduras sanguinárias”. Rubio, apesar de ser porta-voz dos “refugiados”, também lidera o pesadelo imigratório nos Estados Unidos: trabalhou para acelerar deportações em massa e desmontar as proteções concedidas a imigrantes durante o governo Biden.

Em dezembro do ano passado, menos de um mês antes do ataque em Caracas e sequestro de Maduro e sua esposa, esta trupe trumpista divulgou a nova Doutrina de Segurança dos Estados Unidos. Sua alma: a reafirmação — e radicalização — do lema “America First”, com ênfase renovada em tratar a América Latina como quintal do Tio Sam. O documento adota uma visão abertamente maquiavélica: alianças são instrumentos, e o poder econômico e militar, meios legítimos para forçar concessões. A política externa é reorientada por meio de um “Corolário Trump” à Doutrina Monroe de 1823, que recoloca o Hemisfério Ocidental como esfera de influência prioritária e legitima ações unilaterais. Trump já adotou nome próprio, com orgulho: a “Doutrina Donroe”. Afinal, impérios sempre recorrem à violência bruta quando seus mecanismos sutis de controle, como diplomacia e coerção econômica, falham…  

Antes mesmo disso vir a público na forma de documento, já víamos seus sinais. Na Argentina, hoje anarcocapitalistamente pró-gringos, Trump condicionou financiamento externo ao sucesso político de Javier Milei nas eleições legislativas do ano passado, como se dissesse: pibe, se você não merecer, não ganha a mesada do papai… Em Honduras, interferiu diretamente nas eleições, ameaçando cortar remessas de dólares enviadas por imigrantes e dando indulto a um ex-presidente hondurenho condenado por narcotráfico para influenciar o pleito. Sobre o Panamá, declarou publicamente a intenção de “recuperar” o controle do Canal, citando uma suposta influência chinesa como pretexto. Trump também afirmou que o Canadá “deveria ser o 51º estado” e referiu-se cinicamente ao primeiro-ministro de um país aliado histórico como “Governador Trudeau”. Seu interesse em anexar a Groenlândia foi igualmente declarado sem rodeios, repetidas vezes, levando a Dinamarca, membro da Otan, a classificar os Estados Unidos como “ameaça potencial” à sua segurança nacional.

O México chegou a ser classificado como “adversário” pelo Departamento de Justiça estadunidense, abrindo espaço para ameaças explícitas de intervenção militar. Em um gesto simbólico de dominação, longo em sua posse, Trump propôs rebatizar o Golfo do México como “Golfo da América”. Recentemente, novas ameaças foram dirigidas a Cuba e à Colômbia; e reforçadas contra o México e a Groenlândia. Forma-se, assim, um padrão inequívoco de escalada retórica — e política — contra as nações da região: a nova Doutrina de Segurança dos Estados Unidos em implementação a toque de caixa no continente.

Se antes estas nações estavam somente “apreensivas”, hoje cruzar os braços e confiar que o bom-senso e o direito internacional triunfarão pelas vias diplomáticas parece uma realidade distante… Afinal, a Venezuela fez investimentos robustos em esquadrões aéreos e dispõe de um dos sistemas de defesa antiaérea mais sofisticados da América Latina, com baterias russas S-300VM, Buk-M2 e Pantsir-S1, capazes de criar camadas de proteção contra aeronaves, drones e mísseis de cruzeiro. Porém, a primazia militar e tecnológica dos Estados Unidos — que gastaram aproximadamente US$ 997 bilhões em defesa em 2024, sendo responsáveis por cerca de 37% de todo o gasto militar mundial. Esse orçamento é maior que o total gasto pelos próximos nove países somados (incluindo China, Rússia, Índia, Reino Unido, Alemanha, Arábia Saudita, Japão, França e Coreia do Sul) — se impôs na missão criminosa em solo latino-americano, que, pelo que se conta até agora, enfrentou pouca resistência. Nenhum país da região — e talvez poucos no mundo — teria condições de neutralizar um ataque desse porte. Basta uma ordem de Washington para submeter quase qualquer governo, ainda que, em uma guerra terrestre prolongada, o balanço de forças pudesse se tornar menos assimétrico.

A agressão é um recado cristalino à América Latina: pode não haver invasão por terra, mas haverá coerção política, econômica e, se necessário, militar. O que cabe a países como o Brasil, que deveria exercer liderança regional? As alianças do Sul Global, como o Brics, são banguelas quando se trata de defender seus próprios aliados?

Devem os governos insistir em um pragmatismo defensivo, com ajustes táticos e discursivos para evitar confrontos diretos com os Estados Unidos, mantendo cooperação seletiva em áreas de interesse comum e adiando a resolução de vulnerabilidades estruturais? Devem seguir o caminho europeu e ampliar significativamente os gastos militares? Ou apostar na autonomia estratégica por meio do fortalecimento da cooperação regional e sul-sul, do investimento na indústria nacional de defesa e da diversificação de parcerias — um processo mais lento, custoso e inevitavelmente gerador de atritos com Washington?

“O que você faria se um inimigo brutal viesse até você, armado até os dentes, disposto a matá-lo?”

Esta questão emerge num rap entoado pela juventude chavista. Quais seriam, então, os desdobramentos calculados pela Casa Branca após o espetáculo militar em Caracas? Num primeiro momento, Washington parece ter rifado o apoio a María Corina Machado e a seu candidato, Edmundo González — autodeclarados vencedores das controversas eleições presidenciais de 2024 — ao menos no curto prazo.

Delcy Rodríguez foi empossada presidente interina da Venezuela, com o núcleo duro chavista aparentemente sólido e mantendo o tom estratégico adotado por Maduro nos últimos meses: defesa da paz, abertura à negociação e respeito à soberania, sem deixar de reafirmar o recado central — “jamais seremos colônia de qualquer império”.

O movimento era previsível. É possível que Trump tenha apostado na agressão militar para forçar novas eleições em até noventa dias, por vacância de poder, como prevê a Constituição venezuelana. O plano, no entanto, esbarra em uma lacuna jurídica: a legislação não contempla prisão internacional ou sequestro por forças estrangeiras como causa automática de falta absoluta. Trata-se de um precedente inédito. Assim, a defesa de Maduro como presidente de fato — e, por consequência, da interinidade de Rodríguez — pode neutralizar essa estratégia dos Estados Unidos diante da Assembleia Nacional e do Judiciário.

Outra hipótese é que a sucessão interna no chavismo não desagrade a Washington. Delcy acumulou a Vice-Presidência com o comando do Ministério dos Hidrocarbonetos, onde demonstrou grande habilidade de negociação no setor petroleiro, inclusive com corporações estadunidenses. Na lógica da Casa Branca, ao assumir o Executivo em meio a uma crise profunda — inclusive, migratória: estimava-se que cerca de 20% da população venezuelana esteja vivendo no exterior — e sob coerção militar explícita — com a ameaça de ter “fim parecido ou pior”, nas palavras de Trump —, Delcy ficaria de mãos atadas diante das exigências impostas por Washington.

Se esse for o cenário, trata-se de mais um teste extremo de resiliência para o governo venezuelano: como negociar com uma potência inimiga, armada até os dentes no quintal de sua casa — talvez cedendo anéis para não perder os dedos — enquanto tenta ganhar tempo para mobilizar solidariedade internacional e articular novas alianças geopolíticas, econômicas e militares capazes de furar o cerco de Washington? 

Desde setembro do ano passado, quando Trump iniciou o envio de navios de guerra ao Caribe, ficou claro para o Palácio de Miraflores que não se tratava de blefe. Alguns cenários estavam no radar. O primeiro, uma guerra suja, com operações que iam de ciberataques e sabotagem de infraestrutura a surtos de violência armada para desgastar o governo. O segundo, o sequestro ou assassinato de Maduro e do alto escalão bolivariano, à semelhança do que ocorreu com Qassem Soleimani no Irã, em 2020. O terceiro, uma invasão terrestre — do ponto de vista militar-estratégico, paradoxalmente, o cenário mais caro, arriscado e politicamente desgastante para uma potência como os Estados Unidos, mesmo quando há supremacia tecnológica absoluta.

Há cerca de 23 anos, os Estados Unidos tentam derrubar o governo venezuelano. Primeiro, evocaram violações de direitos humanos, corrupção e a suposta erosão das instituições democráticas. Depois, passaram a falar em ameaças à segurança nacional e aos interesses estratégicos de Washington. Mais recentemente, juntaram-se acusações de narcoterrorismo e combate aos cartéis de drogas. As justificativas mudam; o objetivo, não.

Muita coisa passou, então, com este país que, além de deter a maior reserva comprovada de petróleo do planeta, é uma potência em recursos estratégicos: possui a oitava maior reserva mundial de gás natural, as principais reservas globais de ouro, níquel e terras raras — minerais essenciais para a tecnologia de ponta. Golpes militares fracassados, violência pós-eleitoral, tentativas de “governo paralelo”, sanções econômicas, rapinagem de ativos no exterior e operações de desestabilização — incluindo terrorismo e infiltração de mercenários estadunidenses — não surtiram efeito. Faltava apenas a investida militar direta de Washington. E o chavismo vinha se preparando para esse cenário há anos: da organização das milícias bolivarianas à cooperação em defesa, ainda que limitada, com Irã, Rússia e China; das tentativas de diversificar parcerias econômicas no Sul Global à busca de ingresso nos Brics — vetada pelo Brasil.

Há um ponto central frequentemente subestimado em Washington: um ataque estadunidense tende a produzir mais resistência do que submissão popular, mesmo em um país atravessado por crises profundas. A agressão está longe de ser um atestado de óbito. Diante de um invasor externo, o chavismo não necessariamente se fragiliza — pode, ao contrário, ganhar coesão, inclusive frustrando a aposta de que a pressão bélica provocaria fissuras na alta cúpula das Forças Armadas. Nesses cenários, a ofensiva inicial costuma converter-se em guerra de desgaste, na qual a superioridade tecnológica perde eficácia frente ao custo econômico e político interno exigidos por uma operação de coerção permanente — ou, no limite, por uma tentativa de ocupação. Esta parece ser a fé do governo bolivariano.

Já em 2019, em meio à escalada de tensão com os Estados Unidos, o então dirigente chavista e hoje ministro do Interior, da Justiça e da Paz, Diosdado Cabello, advertia: “Irmãos, preciso ser franco com vocês. A única coisa que resta é a invasão norte-americana. É provável que eles entrem na Venezuela. Mas o problema é como eles vão sair — porque nos tornaremos o Vietnã.”

Não se tratará, portanto, de um desfecho virtuoso, imediato ou linear, mas de um processo marcado por ambivalências, no qual a resistência tende a conviver com tensões internas, ameaças permanentes, disputas políticas e episódios de violência. No atual contexto geopolítico, Delcy Rodriguez terá que adaptar a cartilha cubana de antiimperialismo intransigente sob esta ameaça existencial da revolução bolivariana? Incontestavelmente, é o início de uma nova fase perigosa, mas também cheia de oportunidades históricas para a luta pela soberania latino-americana. 

Resta acompanhar de perto as cartas que a Venezuela colocará sobre a mesa. E, tão importante quanto isso, saber se jogará sozinha diante da ameaça-Trump que ronda toda a América Latina. O drama venezuelano de hoje pode ser o drama que Colômbia, Cuba e Groenlândia — já ameaçadas — viverão amanhã. E, depois de amanhã, o de México, Brasil e de qualquer país que se coloque à frente dos interesses imperialistas. Só para somar à playlist deste momento, outro rap da juventude venezuelana: “Nossa voz não se calará. Somos esse bravo povo pelo qual Bolívar deu sua vida pela liberdade. E há muito nos livramos das correntes e juramos que elas não voltarão.”

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