MARIANA LIMA Colunista de Saúde


 




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Privacidade: pacientes com HIV estão sob vigilância do Smart Sampa

A expansão do Smart Sampa, programa de reconhecimento facial por meio de câmeras, provoca debates sobre privacidade e proteção de dados na cidade de São Paulo. A última denúncia, publicada no Brasil de Fato, é de que a prefeitura instalou as câmeras em áreas internas do Serviço de Assistência Especializada (SAE) Fidelis Ribeiro, na Penha, zona leste da capital paulista, que atende pessoas com HIV/aids e outras infecções sexualmente transmissíveis.

Há duas grandes preocupações relacionadas a essa invasão de privacidade. A primeira diz respeito ao fato de que pessoas com ISTs em geral buscam sigilo, por serem uma população que sofre discriminação. A segunda preocupação é sobre quem poderá acessar os dados dos pacientes que frequentam a unidade, uma vez que não apenas a prefeitura armazena essas informações, mas também as empresas privadas responsáveis por metade do equipamento utilizado.

As preocupações também remontam a um episódio recente ocorrido em um Caps, em que um pacientes foi retirado de um grupo terapêutico sob a mira de armas e levado à delegacia, por resultado de uma falha do reconhecimento facial das câmeras. Fica cada vez mais evidente a ineficácia e a gravidade dessa estratégia de segurança pública, adotada com pouca transparência e que não preza pelas populações mais vulneráveis da cidade.

Ultraprocessados: taxação e pesquisa

Relatórios recentes expõem uma contradição na política de taxação alimentar brasileira. Segundo a Organização Mundial da Saúde, no Brasil até a água engarrafada é mais taxada do que bebidas açucaradas, enquanto produtos associados ao aumento de doenças crônicas como obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares seguem com carga tributária menor. A lógica fiscal, que poderia ser usada para desestimular o consumo nocivo, protege ultraprocessados e desestimula alternativas naturais e mais saudáveis.

Ao mesmo tempo, cresce a disputa em torno da própria produção de evidência científica sobre esses alimentos. Pesquisas indicam impactos consistentes dos ultraprocessados na saúde, mas o financiamento privado da Big Food coloca em cheque quais e de que forma os resultados são divulgados. Ao contrário do cenário norte americano, a pesquisa brasileira alimentícia não ocorre sob dependência de empresas, contudo os crescentes cortes no orçamento científico podem pôr em xeque a segurança da pesquisa que desafia a lógica dos interesses privados.

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Crise climática e HIV

Um estudo recém-publicado explica como o agravamento da crise climática aumenta a vulnerabilidade da população à aids e agrava as condições de saúde de quem já convive com o vírus. Os eventos climáticos extremos levam à piora no acesso às profilaxias e a unidades de saúde para diagnóstico e tratamento. Confira mais informações. 

Combate à Malária

Um estudo mostrou que a combinação de soluções simples pode reduzir o calor em casas rurais e diminuir a presença de mosquitos transmissores de doenças. Testes com diferentes estratégias arquitetônicas têm demonstrado resultados promissores e acessíveis. Veja alguns dos métodos

IA no desenvolvimento

Agências reguladoras dos EUA e da União Europeia divulgaram princípios para o uso de inteligência artificial no desenvolvimento de medicamentos, divulgando como gerar e monitorar evidências ao longo do ciclo de vida de um medicamento. A iniciativa busca acelerar pesquisas e reduzir testes em animais. Como funciona?

Vacina contra herpes-zóster

A farmacêutica que produz a vacina contra herpes-zóster, a GSK, fez uma proposta de venda para o SUS por R$ 403,30. Foi rejeitada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias, que considera que a oferta deveria ser de até R$ 75,75 para que fosse custo-efetiva. Entenda os valores.

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Medicamentos: as distorções na política de preços

No Brasil, o preço de um remédio pode se multiplicar por sete sem ferir a regulação em vigor. Brecha favorece a farsa dos descontos com CPF e aumenta o gasto das famílias – engordando bolso de monopólios. Nova resolução arrisca agravar problema

Por Susana van der Ploeg Marina Paullelli, para a coluna Saúde não é mercadoria

A regulação de preços de medicamentos foi criada para ser um instrumento de política pública em favor do direito à saúde. A própria Lei nº 10.742/2003, que criou a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) define que sua finalidade é promover a assistência farmacêutica, estimulando a oferta de medicamentos e a competitividade do setor – não a rentabilidade de monopólios. Na prática, porém, o desenho e a implementação dessa regulação vêm produzindo distorções que encarecem o acesso tanto nas farmácias quanto no SUS.

Pesquisas sobre o mercado brasileiro mostram que os tetos definidos pela CMED (divididos entre as categorias preço-fábrica, PMC e PMVG) estão sistematicamente muito acima dos preços efetivamente praticados. Em 2023, ao comparar o Preço Máximo de Venda ao Governo (PMVG) com as compras federais de 11 medicamentos estratégicos, o levantamento “O tamanho da brecha” encontrou diferenças médias de 73,78% a menos em relação ao teto – no caso do dolutegravir, a diferença chegou a 84,16%. Nas farmácias, a distorção entre o preço teto e o valor de mercado foi ainda maior, descobriu o estudo feito pelo Instituto de Defesa de Consumidores (Idec).


Leia os textos da coluna Saúde não é mercadoria, do Grupo de Trabalho sobre Propriedade Intelectual (GTPI).

versão de 2025 da pesquisa, focada em avaliar o impacto das regras de preço para os usuários, verificou a distância entre o Preço Máximo de Venda ao Consumidor (PMC) e o preço realmente apresentado no balcão da farmácia para medicamentos de marca e para os genéricos. Em conclusão, foi possível verificar que, além de existirem diferenças entre os preços praticados em cada estabelecimento, há grandes variações entre o teto e o valor cobrado na prática. 

A maior distância foi encontrada no caso da Losartana Potássica. Na farmácia, este remédio relativamente comum chega a custar quase oito vezes menos que o teto da CMED – uma variação de mais de 675%. Este achado, ao lado de outros do levantamento, indica que os preços praticados podem mais do que dobrar, de um dia para o outro. Em alguns casos, eles podem até mesmo se multiplicar por sete, sem que isso represente descumprimento da regulação atual.

Isso sem contar o impacto do fornecimento do CPF no valor final do medicamento. A partir da apresentação de um dado pessoal, o consumidor pode conseguir um desconto de até 55,65% no produto. Ou seja, mais da metade do valor apresentado inicialmente na venda.

Essas distorções ficam ainda mais nítidas quando observamos os relatórios da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias ao Sistema Único de Saúde (Conitec). Em vários casos recentes, a empresa proprietária de uma determinada tecnologia chega à mesa de negociação com preços astronômicos e oferta “descontos” de 60%, 70%, 90% como se fossem concessões extraordinárias – quando, na verdade, revelam o quão inflados estavam os tetos. 

Alguns exemplos ilustram essa lógica:

  • Bictegravir para HIV – O PMVG (18%) por comprimido é de R$ 114,47. A própria Gilead ofereceu um desconto superior a 90%, chegando a cerca de R$ 10,44 por comprimido.
  • Abemaciclibe (câncer de mama) – Com PMVG (18%) de R$ 17.149,81 por caixa, a Eli Lilly propôs desconto de 67%, resultando em cerca de R$ 5.618 por caixa.
  • Trikafta® (elexacaftor/tezacaftor/ivacaftor) para fibrose cística – Na incorporação em 2023, o PMVG (18%) foi definido em R$ 101.257,09. O preço proposto pela Vertex, com desconto, foi de R$ 36.169,10 por caixa (desconto de cerca de 66% em relação ao teto), levando a um custo estimado de aproximadamente R$ 440 mil por paciente/ano. Na prática, o valor proposto ao SUS chega a cerca de R$ 471 mil por paciente/ano.

Leia também nossa reportagem Preço de medicamentos: a história de um engodo.


Patentes elevam preços

Esses percentuais não traduzem a benevolência da indústria. Na verdade, mostram o resultado de uma regulação que fixa preços tão altos que há espaço para conceder “mega-descontos” sem tocar na margem de lucro das empresas. O problema é que, mesmo após o desconto, o valor absoluto permanece proibitivo para um sistema universal como o SUS.

O caso do Trikafta é emblemático. Além dos preços estratosféricos, o produto está blindado por uma muralha de patentes: no Brasil, o GTPI mapeou 9 patentes concedidas e 22 pedidos de patentes relacionados ao medicamento. O primeiro depósito, de 24 de junho de 2005, teve sua patente expirada este ano, após os 20 anos previstos na Lei. O pedido de patente mais recente, de 2019, ainda sem decisão final, pode estender o monopólio até 2049, enquanto a última patente concedida já empurrou a exclusividade até 2035. 

Ao mesmo tempo, na Argentina, onde existe genérico e as patentes foram negadas, o preço é quase três vezes menor. Este ano, a farmacêutica de Bangladesh Beximco Pharmaceuticals anunciou que passará a fornecer uma versão genérica sob a marca Triko, a US$ 6.375 por criança/ano e US$ 12.750 por adulto/ano. Em reais, esse preço representaria, respectivamente, algo em torno de R$ 37 mil e R$ 73 mil, respectivamente. 

A combinação de monopólios alongados e tetos inflados empurra o SUS a pagar caro – e mal.

Uma má proposta

Em breve, será publicada uma nova resolução da CMED sobre “os critérios para definição de preços de produtos novos e novas apresentações de medicamentos”. Diante desse quadro, o futuro documento deveria corrigir essas distorções, como também proteger o consumidor de possíveis alterações bruscas de preço. Necessário, então, seria aproximar os tetos dos preços reais, permitir reajustes negativos, fortalecer o monitoramento e ampliar a transparência. 

Por enquanto, porém, as perspectivas de atualização da norma sobre os preços de entrada preocupam: surge um conjunto de mudanças que, potencialmente, deixariam de lado a proteção do direito à saúde.

Alguns eixos dessa proposta, submetidas a consulta pública em julho, agravarão o problema, se mantidas:

  1. Confusão entre regulação de preços e estímulo à inovação
    A CMED passa a se apresentar, na prática, como agente de fomento à inovação farmacêutica via política de preços. Isso é um desvio de função. A Lei 10.742/2003 vincula a regulação econômica à assistência farmacêutica e à competitividade, não à premiação de “novidades” tecnológicas. Fomentar inovação exige outros instrumentos, não a liberação de preços em um mercado já marcado por monopólios de patentes e assimetrias de poder.

  2. “Inovação incremental” como fachada para aumentos de preço
    Ao criar uma categoria específica e mais valorizada para inovações incrementais (nova dosagem, nova forma de administração, pequenas combinações), a proposta legitima o evergreening: a prática de estender monopólios com mudanças cosméticas, muitas vezes sem ganho terapêutico proporcional. Em vez de proteger o SUS, a resolução o obriga a pagar mais caro por versões “repaginadas” de medicamentos antigos.

  3. Patente como critério provisório de preço: prêmio indevido
    A ideia de permitir que o mero depósito de patente classifique um produto na categoria mais alta de preço é frontalmente incompatível com o sistema jurídico brasileiro. Transformar o pedido – ainda não examinado – em passaporte para preço máximo é antecipar um direito que pode nunca existir, inflando artificialmente o patamar de referência para negociações com o SUS.

  4. Mais discricionariedade, menos controle público
    Embora o discurso seja de “reduzir discricionariedade”, a proposta amplia o uso de preços provisórios e mecanismos flexíveis, sem contrapartida em termos de transparência, dados de custo ou participação social. Em um contexto em que a CMED já não monitora adequadamente os preços reais nem consegue reduzir tetos excessivos, abrir mais espaço para negociações opacas é ampliar o poder de pressão da indústria e enfraquecer a regulação.

Por sua vez, o PL 5.591/2020 (paralisado desde 2023, desde que o senador Ciro Nogueira (PP/PI) assumiu sua relatoria) caminharia na direção oposta. Se aprovado, o projeto de lei permitiria reajustes negativos nos preços dos fármacos, adequação à cesta de países de referência à realidade brasileira — evitando países sem sistema público ou sem regulação de preços, como os EUA, que permanece na cesta — e ampliação da transparência sobre custos de produção, pesquisa e desenvolvimento (P&D) e políticas de desconto. Esses elementos são essenciais para que a CMED deixe de operar sem transparência, baseando-se em informações fornecidas pela própria indústria, e possa, de fato, cumprir seu papel de reguladora.

As distorções de preço não são um detalhe técnico: elas se traduzem em receitas públicas drenadas para monopólios, tratamentos negados ou racionados, judicialização e famílias que gastam uma fatia desproporcional de sua renda em medicamentos. Enquanto o teto continuar muito acima da realidade e a regulação for desenhada para acomodar interesses privados, em vez de corrigir essa “brecha”, o Brasil seguirá pagando caro – e mal – pela saúde de sua população, comprometendo a sustentabilidade do SUS e o direito ao acesso universal a medicamentos essenciais.

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Vacina de dengue brasileira é aprovada pela Anvisa

A Anvisa aprovou, nesta quarta-feira (26), o registro da vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan, primeiro imunizante totalmente produzido no país. Segundo contou um dos diretores da agência, Thiago Campos, em entrevista a este boletim, a decisão se baseou em três elementos fundamentais: a consistência dos dados de qualidade farmacotécnica, a robustez das evidências de eficácia e segurança obtidas nos estudos clínicos conduzidos no Brasil e a demonstração da capacidade produtiva em conformidade com as Boas Práticas de Fabricação.

Com o início da distribuição previsto para 2026, serão adotadas medidas de monitoramento, incluindo ações contínuas de farmacovigilância, análise de eventos adversos, atualização de dados de efetividade e eventuais medidas adicionais de supervisão sanitária. Segundo Campos, esses mecanismos asseguram que a vacina mantenha o mesmo padrão de qualidade, segurança e eficácia ao longo de todo o seu ciclo de vida.

De acordo com a Agência Brasil, há cerca de 1 milhão de doses prontas para distribuição, e o Butantan prevê alcançar 30 milhões até meados de 2026. A indicação aprovada é para pessoas de 12 a 59 anos, em dose única. 

A expectativa é que o imunizante beneficie não apenas a saúde pública brasileira, mas de diversos países que sofrem com a alta da dengue diante das mudanças climáticas, que favorecem a proliferação do mosquito. O vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Renato Kfouri, alerta que a doença está em plena expansão no mundo, especialmente em países tropicais: “Hoje, mais da metade da população mundial vive em zona de risco para a doença”.

Cientistas voltam a acender alerta sobre gripe aviária

Mais uma vez, um grupo de cientistas afirmou que a gripe aviária tem potencial de se tornar uma perigosa pandemia para a humanidade. Desta vez, o aviso veio do Instituto Pasteur, da França. O corpo técnico do Pasteur alega que não temos anticorpos para a cepa H5 do vírus, que tem se espalhado por mamíferos, ao contrário das anteriores H1 e H3.

Os últimos invernos do Norte Global têm registrado epidemias cada vez mais fortes entre as aves, o que causou o abate de centenas de milhões delas e afetou o setor comercial. Quanto à cepa H5N5, houve uma morte de humano infectado nos Estados Unidos. O último relatório da OMS sobre a doença, publicado em 21 de novembro, afirma que a transmissão entre humanos ainda é difícil.

A saúde mental de mães solo

De acordo com o IBGE, são 7,8 milhões de lares comandados por mães que cuidam sozinhas de um ou mais filhos (13,5% do total). Quase sempre responsáveis pelo cuidado de crianças em contextos em que o casal genitor não vive junto, essas mães solitárias enfrentam vários obstáculos cotidianos, o que se traduz em diversas possibilidades de adoecimento.

Como retratou matéria do Estadão, a saúde mental é ponto sensível para essas mulheres, que passam por privação do sono, ansiedade, depressão, estigmas e limitações financeiras capazes de afetar sua condição física e psíquica. E as soluções para seus dramas são escassas: muitas delas carecem de rede de apoio familiar e social e a luta permanente de superação individual acaba sendo a única opção.

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Falsas canetas emagrecedoras

Febre da “indústria da beleza”, as canetas injetáveis destinadas a tratar diabetes se tornaram ferramentas de perda de peso. Com o mercado aquecido, falsificadores tentam lucrar, o que gerou uma ação da Polícia Federal. Nesta semana, a PF fez busca e apreensão em diversos estados e tenta cortar as redes de venda por internet. Entenda.

Detecção tardia de câncer colorretal

Dia 27 de novembro é marcado como Dia Nacional de Combate ao Câncer e entidades aproveitam para reforçar campanhas. Uma delas é organizada pela Fundação do Câncer, que lançou relatório no qual alerta que 60% dos casos estudados entre 2014 e 2023 demoraram para ser diagnosticados. Saiba o que a campanha defende.

Remédio para doença pulmonar no rol da ANS

Em sua última reunião, a diretoria colegiada da Agência Nacional de Saúde Suplementar decidiu incluir o dupilumabe no chamado rol exemplificativo, o cardápio de tratamentos que planos de saúde devem garantir a usuários. A terapia se destina a tratar doença pulmonar obstrutiva crônica. Veja como funciona.

Contaminação de água ameaça Argentina

Estudo da Universidade de Rosário alerta que 17 milhões, quase metade da população do país, espalhada por 12 províncias, está exposta à contaminação de água por arsênico. A substância química estaria diluída na água em quantidades superiores ao consumo seguro. Como funciona a vigilância sanitária no país?

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Quando a ciência ousa transformar o Brasil

Dois pesquisadores apresentam, no grande encontro da Saúde Coletiva, suas contribuições. Uma maneira nova (e subversiva) de enxergar a alimentação. O uso de big data para construir políticas de igualdade. Saberá o poder público aliar-se à academia para enfrentar as misérias do país?

Dois dos maiores expoentes da ciência brasileira estiveram presentes na noite de terça (2) no 14º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, ao lado da sanitarista, socióloga e ex-ministra da Saúde que comandou a reconstrução do SUS após a pandemia, Nísia Trindade. Eram os epidemiologistas Carlos Monteiro, fundador do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens/USP), e Mauricio Barreto, criador do Centro de Integração de Dados e Conhecimento para Saúde (Cidacs/Fiocruz). As instituições expressam duas enormes conquistas para a saúde dos brasileiros, com influência global. A concepção e condução do grande debate ficou a cargo do sanitarista e vice-presidente da Abrasco, Reinaldo Guimarães.

Um centro de análise de um enorme volume de dados da população brasileira, onde dezenas de pesquisadores estão reunidos para averiguar a efetividade de programas de proteção social e seus impactos na saúde – esse poderia ser um resumo do papel do Cidacs, localizado no Parque Tecnológico da Bahia, em Salvador. Sua existência foi possível graças a um diálogo da academia com a gestão pública. Em meados de 2011, começou a ser firmada uma parceria entre pesquisadores e o Ministério do Desenvolvimento Social, por influência da então ministra Tereza Campello. A ideia era ceder para estudos epidemiológicos os dados do Cadastro Único (CadÚnico) – um registro do governo federal de informações de todas as pessoas que se beneficiam de programas assistenciais como o Bolsa Família.

Mauricio Barreto, criador do Centro de Integração de Dados e Conhecimento para Saúde – Cidacs/Fiocruz. Créditos: Kio Lima/Abrascão

Hoje, 9 anos após a criação do Cidacs, esse sistema conta com informações de 140 milhões de brasileiros – utilizando tecnologias complexas, como alta capacidade computacional. É possível cruzar informações de programas sociais com dados de saúde, nascimento, nutrição, óbitos e outros. O resultado é uma imensa base de investigação, que alimenta pesquisas reveladoras sobre as determinações sociais da saúde. Algumas delas, citadas por Mauricio, demonstram que o Bolsa Família, além de elevar a renda dos mais empobrecidos, teve dezenas de impactos secundários. Contribuiu para a melhora do estado nutricional, a redução do baixo peso ao nascer, da mortalidade infantil e materna, de doenças cardiovasculares – até abaixou níveis de hospitalização por suicídio e melhorou a saúde mental de seus beneficiários.


Em sua fala, Mauricio frisou a importância de a epidemiologia estar fortemente vinculada à Saúde Coletiva no Brasil e mostrou como novas tecnologias podem fazer avançar a compreensão sobre a população brasileira ­– e, mais importante, atuar sobre as imensas desigualdades do país. Segundo ele, as descobertas do Cidacs sobre o impacto do Bolsa Família na saúde mostram que “a importância do SUS tem que ser compatibilizada com processos de transformação da sociedade”. Se um programa como esse, que reduz muito ligeiramente o fosso entre ricos e pobres, provoca tantas transformações na vida das pessoas, “imaginem o que faria o pleno emprego, por exemplo”, instiga. Maurício encerrou sua fala com uma defesa: “O SUS é uma engenharia em construção, e ela precisa de um ramo da Ciência & Desenvolvimento que seja inovador e permita a transformação”.

Uma mudança de paradigma na alimentação

Tanto Mauricio quanto Carlos Monteiro, que se dirigiu ao público em seguida, são mostras de que mesmo em condições muito desfavoráveis, a ciência brasileira comprometida com avanços sociais segue forte. O pesquisador da USP foi considerado, pelo Washington Post, uma das 50 pessoas que mais influenciariam o ano de 2025. Seus estudos foram responsáveis por uma mudança de paradigma na alimentação. Monteiro foi um dos criadores da NOVA, uma classificação que categoriza os alimentos de acordo com seu grau de processamento – de in natura a ultraprocessados. Até então, grãos de cereais e biscoitos eram igualmente classificados como “fontes de carboidrato”; filé de peixe e salsicha, “proteínas”. Mas os estudos realizados por Monteiro e seus colegas foram mostrando, a partir do final dos anos 2000, que isso não era correto.

Ao longo do século passado, os avanços na indústria eram muito positivos, ao prolongar a duração da comida, conta Monteiro. “Mas a partir de certo momento ela passou a investir em substitutos dos alimentos, extremamente mais lucrativos que os convencionais”, alerta. São os ultraprocessados, formulações industriais com baixíssimo nível de nutrientes e repletos de compostos químicos para torná-los mais agradáveis ao paladar e olfato. Segundo o epidemiologista, a partir de determinado momento, a indústria – com seu enorme poder de influência ­– começou a mudar o padrão de alimentação das populações para promover esse tipo de comida.

Os estudos do grupo de Carlos Monteiro foram pioneiros em mostrar que essas formulações estavam impactando a população de forma extremamente negativa, causando aumento da obesidade e de doenças crônicas como diabetes e hipertensão. O autor foi um dos responsáveis pela Vigitel, o Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico que começou a ser implantado a partir de 2005. Por meio de entrevistas à distância, o Ministério da Saúde passou a fazer uma avaliação de consumo alimentar e atividade física. As primeiras hipóteses sobre a mudança na alimentação dos brasileiros começaram a surgir quando os pesquisadores perceberam que a desnutrição estava caindo, mas a obesidade aumentava.

Carlos Monteiro, fundador do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde – Nupens/USP. Créditos: Kio Lima/Abrascão

A NOVA tem caráter subversivo, defende Monteiro, porque “aponta com o dedo para quem é o responsável por essa epidemia” – o grande capital. Sua hipótese foi testada por dezenas de cientistas mundo afora que comprovam os malefícios do aumento do consumo de ultraprocessados. Hoje, a classificação de alimentos criada pelo grupo de pesquisadores do Nupens já inspirou as diretrizes de 15 países – tão diversos quanto a França e a Malásia ­– e influenciou políticas regulatórias por toda a América Latina. O próprio modelo de perfil de nutrientes elaborado pela Organização Pan-americana da Saúde (Opas) baseou-se na NOVA.

A fala de Carlos Monteiro traçou um panorama de sua trajetória acadêmica, e merece ser assistida por completo. Vale destacar sua primeira experiência, quando desenvolveu a dissertação de mestrado em 1975, no departamento de medicina preventiva da Faculdade de Medicina da USP. O epidemiologista fez um levantamento nutricional nos bairros onde fazia residência médica, no Vale do Ribeira ­– região pobre do sul do estado de São Paulo. Seu grande achado: as crianças de famílias que tinham uma porção de terra para plantar, por menor que fosse, eram muito menos afetadas pela desnutrição que aquelas sem posse. “A recomendação da dissertação era a reforma agrária”, brinca, lembrando que aquele era um período de intensa perseguição da ditadura militar no Brasil.

Como resposta, políticas públicas

Falando nos militares… Após a apresentação de Monteiro, o mediador Reinaldo Guimarães passou a palavra para a ex-ministra Nísia Trindade, lembrando: as grandes descobertas da ciência brasileira não são efetivas se não houver quem as escute no poder público. “Imagine se Carlos Monteiro ou Mauricio Barreto tivessem que lidar com um general Pazuello para implementar suas descobertas”, provocou, recordando o desmonte do Ministério da Saúde no governo Bolsonaro. Nísia, ela própria uma renomada pesquisadora, comandou a reconstrução da pasta com os ouvidos atentos aos cientistas e contribuiu para melhorar os indicadores da saúde dos brasileiros em seus pouco mais de dois anos no ministério.


Nísia Trindade, ex-ministra da Saúde que comandou a reconstrução da pasta entre 2023 e 2025. Créditos: Kio Lima/Abrascão

Ela saudou a presença dos dois epidemiologistas: “A ciência do Brasil hoje é referência e os trabalhos de vocês têm muito a ver com isso. Isso vai além de publicações em periódicos – embora sejam muito importantes. Esse trabalho influencia a construção de políticas públicas”. Ao traçar um panorama das ações de sua gestão à frente da saúde, frisou: “Para que haja consequência no que estamos falando, é importante o investimento em Ciência, Tecnologia e Inovação” – e destacou o “papel de indução do Ministério da Saúde, indução que não se faz de gabinete, mas na escuta e diálogo feitos com comunidade científica e ouvindo os problemas da sociedade”.

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