MAURO DA SILVA Colunista de Variedade


 





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Cálculo, Capital e Ciência: os nexos reveladores

Em colagem de citações, cenas de uma evolução histórico-filosófica. Como moeda e mensuração, marcas da modernidade, repercutiram no pensamento e produção científica. Por que o neoliberalismo é o ápice desta relação. O que virá a seguir?

Título original:
Capitalismo e ciência moderna: uma colagem de citações

Este trabalho não constitui um artigo, mas sim uma colagem de citações (sendo algumas autocitações), entremeadas com um texto cujo objetivo é explicitar a linha de pensamento que as ordena.

O tema central, no plano mais abstrato é o par conceitual qualidade/quantidade. No mais concreto, trata-se de um estudo histórico sobre o processo de quantificação, presente tanto no capitalismo quanto na ciência moderna, impulsionado em ambos pelo uso do dinheiro, enquanto uma entidade essencialmente quantitativa. O capitalismo e a ciência moderna constituem, na modernidade, forças quantificadoras das sociedades e do autoentendimento das sociedades.


A seção 1 é um prolegômeno em que se definem os conceitos de quantificaçãomensuração e matematização, os quais desempenham papéis centrais ao longo do  trabalho. (Em vez de ‘mensuração’, usarei, ocasionalmente, ‘medição’, como sinônimo). As demais seções têm a forma de um recorte, uma sequência de períodos ou momentos históricos, como fotogramas de um filme, a saber, grosso modo:

  • Séc. XIV (com algumas referências a Aristóteles). Quantificação do conhecimento pelos escolásticos. A exposição deste período é de longe a mais extensa, vai da seção 2 à 10.
  • Séc. XVI-XVII. Invenção de métodos de mensuração (que permitem a matematização do conhecimento da natureza), por Galileu. Seções 11 e 12.
  • Séc. XVIII. O utilitarismo como força quantificadora: as ideias de Bentham. Seções 13 e 14.
  • Séc. XIX. O triunfo da matematização da ciência: o lema de Lord Kelvin. Seção 15.
  • Séc. XX. A matematização da metaciência: a cientometria de Solla Price. Seções 16 e 17.
  • Sec. XX-XXI. Neoliberalismo e quantificação Seção 18.

Sumário

  • 1. Quantificação, mensuração e matematização
  • 2. A quantificação da física pré-moderna
  • 3. Internalismo e externalismo na história da quantificação
  • 4. A monetização da sociedade europeia
  • 5. Entram em cena os escolásticos
  • 6. O dinheiro como medida de todas as coisas
  • 7. O dinheiro mede qualidades
  • 8. As contribuições do Merton College e da Universidade de Paris
  • 9. Tomás de Aquino e a troca justa
  • 10. A inexistência de medições
  • 11. As mensurações de Galileu
  • 12. A matemática de Galileu
  • 13. O utilitarismo como força quantificadora; as ideias de Bentham
  • 14. Marx contra Bentham
  • 15. O triunfo da matematização; o lema de Lord Kelvin
  • 16. A cientometria
  • 17. Crescimento exponencial da ciência: evidências e implicações
  • 18. Neoliberalismo e quantificação

1. Quantificação, mensuração e matematização

A definição dos três conceitos se faz por meio de uma autocitação, proveniente do livro A mercantilização da ciência (Oliveira, 2023; daqui por diante designado por MzC).

Tomando a quantidade como um conceito primitivo, definimos a quantificação como o processo de desenvolvimento da visão da realidade em termos de quantidade. A quantificação é um processo cognitivo, situa-se na esfera das ideias, na mente dos seres humanos. A mensuração situa-se na esfera da prática, é uma forma de interação com a realidade que torna mais definidos, mais precisos, aspectos da visão quantitativa. A quantificação pode existir sem a mensuração. Um bom exemplo dessa possibilidade é a Geometria Euclidiana. O teorema de Pitágoras refere-se, evidentemente, a quantidades: os tamanhos dos lados de um triângulo retângulo. Nada há de absurdo em pensá-lo enquanto uma lei empírica, que pode ser testada pela medição dos lados de triângulos reais, isto é, entidades materiais próximas da ideia do triângulo retângulo. Porém tal operação é exterior ao universo conceitual da Geometria Euclidiana. A mensuração, por outro lado, pressupõe a quantificação: para que algo seja medido, precisa primeiro ser quantificado. O termo matematização, por fim, designa as duas operações em conjunto (matematização = quantificação + mensuração). (MzC, p. 216)

2. A quantificação da física pré-moderna

Isso posto, o ponto de partida é a seguinte passagem de Marshall Clagett:

Com certeza, um dos mais significativos desenvolvimentos no surgimento da física pré-moderna foi sua quantificação. Com frequência tem sido sustentado que tal quantificação ou matematização ocorreu nos séculos XVI e XVII, sob a influência da introdução da matemática de Arquimedes e seu uso e aplicação por Galileu Galilei. É inquestionável que a divulgação das obras e do espírito arquimediano muito fizeram no sentido de moldar a forma que assumiu a investigação matemática dos fenômenos naturais. Porém tornou-se mais visível, na última geração, que o interesse do século XVI no tratamento matemático, quando não experimental, de questões naturais é pelo menos parcialmente produto de investigações seguindo a linha adotada nas universidades de Oxford e Paris no século XIV. Tal interesse na quantificação do físico nessas universidades manifestou-se particularmente no estudo quantitativo do movimento local. Pela primeira vez na história, os filósofos da natureza estavam pensando seriamente na cinemática, o estudo do movimento em termos das dimensões de espaço e tempo. (Clagett, 1950, p. 131-2)

3. Internalismo e externalismo na história da quantificação


Como explicar esse impulso quantificador do século XIV? Quais foram as circunstâncias históricas que levaram a seu surgimento? A resposta defendida a seguir provém de dois escritos do medievalista Joel Kaye: o artigo “The impact of money on the development or fourteenth-century scientific thought” (Kaye, 1988), e o livro Economy and nature in the fourteenth century: money, market exchange and the emergence of scientific thought (Kaye, 2004).

Segundo o autor, nos estudos históricos do movimento quantificador a que Clagett se refere, prevalece uma visão internalista, que busca explicá-lo situando-o na tradição do pensamento filosófico. Embora não excluindo esse aspecto como parte da explicação, Kaye trata do movimento também de uma perspectiva externalista, trazendo à tona características econômicas e sociais da época enquanto fatores que favoreceram seu surgimento. Entre tais fatores, o mais significativo é o que diz respeito ao dinheiro, e aí se encontra a conexão do capitalismo com a ciência moderna, em suas origens. Expondo o objetivo central da obra, diz o autor.

Neste livro sugiro uma explicação histórica, mais ampla do que as que têm sido propostas, para as novas direções tomadas na filosofia natural do século XIV. Argumento que a transformação do modelo conceitual do mundo natural, operada no interior de disciplinas técnicas das universidades de Oxford e Paris, aproximadamente de 1260 a 1380, foi fortemente influenciada pela rápida monetização da sociedade europeia que ocorria nessa época, fora da Universidade e da cultura livresca. Analiso o impacto do mercado monetizado no mais notável e característico interesse na filosofia natural do período: a preocupação com a mensuração, gradação e quantificação das qualidades. Investigo a transferência de insights provenientes do entendimento filosófico do mercado monetizado para o entendimento filosófico da natureza. E descrevo como as mudanças essenciais para a emergência da ciência moderna […] tinham suas raízes na experiência e compreensão da sociedade monetizada. (Kaye, 2004, p. 2)

4. A monetização da sociedade europeia

O aumento do volume da moeda em circulação e a frequência de transações monetárias são apenas dois dos muitos fatores em jogo. O processo de monetização era inextricavelmente ligado à chamada “a revolução comercial do século XIII”: o rápido crescimento do comércio, dos mercados e cidades; a aceleração da produção agrícola e artesanal; a evolução de empresas e técnicas comerciais especializadas; a penetração de valores comerciais em todas as áreas da vida social. Neste sentido, o processo de monetização aparece primeiro nas cidades italianas em fins do século XI e no século XII. Quanto à Inglaterra e à França, os historiadores identificam o “longo” século XIII – isto é, de aproximadamente 1180 a 1320 – como o período da monetização mais rápida. (Kaye, 2004, p. 15-16)

5. Entram em cena os escolásticos

A grande e crescente presença do dinheiro na vida social despertou o interesse dos escolásticos, tanto como elemento de seus estudos sobre a sociedade, quanto pelo envolvimento concreto em transações monetárias. Descrevendo esse envolvimento, diz nosso autor:

Os estudantes e mestres em Oxford e Paris viviam em ambientes urbanos onde os efeitos da monetização e comercialização podiam ser vistos e experimentados por toda parte. Caso o estudante passasse pela High Street em Oxford, ou a Grand pont em Paris, provavelmente se veria no meio de mercados cheios de gente, enquanto media o preço de uma desejada caneta, ou livro, ou caneca, comparando-o com as moedas em seus bolsos. Se fosse um estrangeiro na cidade, como era mais provável, entraria em frequente contato com cambistas e com as complexas equações para converter seu dinheiro na moeda aceita localmente. Ele teria que calcular e administrar seus recursos numa sociedade que fornecia numerosas oportunidades para gastá-los. É pouco surpreendente que as mais antigas cartas de estudantes preservadas refletissem a preocupação com a falta de dinheiro, registrando pedidos de ajuda financeira. (Kaye, 2004, p. 6)

É curioso como essa descrição, com os devidos ajustes, vale também para os estudantes universitários nos dias de hoje. O mesmo pode ser dito a respeito dos professores em suas atividades administrativas, como se lê nesta passagem:

Nas universidades, cada exame prestado, cada etapa cumprida e cada título conquistado tinha um preço. Os registros universitários preservados de Oxford e Paris testemunham a diversidade de taxas cobradas e a quantidade de esforço consciente exigido dos mestres escolásticos na estipulação e coleta de seu valor – uma vez que os professores eram quase sempre também administradores. A minuciosa regulação monetária e graduação da vida universitária era ainda mais complicada pelo hábito de ajustar a taxa cobrada em proporção com a capacidade de pagar de cada estudante. […] A evidência do permanente envolvimento burocrático contida nesses registros levou um estudioso moderno a concluir que os mestres do século XIV gastavam tanto tempo com deveres administrativos quanto escrevendo ou dando aulas. (Kaye, 2004, p.7)

A experiência da vida nessas sociedades monetizadas gerou o interesse dos escolásticos pela vida econômica, particularmente o dinheiro, como se constata pelos escritos que deixaram sobre o tema. Como eles se dedicavam também à Filosofia da Natureza, isso permitia que houvesse influências mútuas entre os dois domínios do conhecimento. Tais escritos consistiam em comentários sobre as ideias econômicas de Aristóteles que, por um lado as incorporavam, por outro desviavam-se delas, abrindo o caminho para a visão de mundo própria da modernidade. Entre os comentários mais destacados, encontram-se os de Alberto Magno (1193-1280), Tomás de Aquino (1225-1274) e Nicole Oresme (1323-1382). (MzC, p. 225)

6. O dinheiro como medida de todas as coisas

Uma concepção de Aristóteles não somente adotada, mas também desenvolvida pelos escolásticos é a que identifica três funções do dinheiro: ser meio de trocamedida do valor e reserva de valor. No presente contexto, a mais importante é a da medida do valor, e especialmente a proposição de que o dinheiro é a medida de todas as coisas (ou, mais precisamente, de tudo o que pode ser objeto de troca). O desenvolvimento introduzido pelos escolásticos foi a ampliação implícita da categoria de coisas que podem ser trocadas.

7. O dinheiro mede qualidades

A introdução das ideias econômicas em outros domínios do pensamento pode ser interpretada como tendo sua origem na seguinte linha de raciocínio, cuja conclusão consiste num aspecto em que os escolásticos se desviaram dos ensinamentos de Aristóteles. Muito esquematicamente: 1) tudo o que é trocável é mensurável pelo dinheiro; 2) o conjunto de coisas trocáveis inclui uma variedade imensa de elementos, que se distinguem uns dos outros por suas qualidades; 3) sendo assim, o dinheiro mede qualidades – o que significa que são mensuráveis, contrariando o que afirma a teoria aristotélica das categorias.

A possibilidade de quantificar qualidades representou uma libertação da visão de mundo qualitativa do sistema aristotélico, e deu origem ao que chamaríamos hoje de um vasto programa de pesquisa tendo por objeto a quantificação das qualidades. Kaye o caracteriza como uma tentativa frenética de estender a mensuração e a quantificação às mais variadas e subjetivas qualidades. (Kaye, 1988, p. 256) Os avanços no programa estimularam os escolásticos a introduzir a visão quantificadora na própria Teologia. (MzC, p. 226).

Logo, não apenas entidades que nunca haviam sido medidas antes, mas também as que nunca foram medidas desde então, eram submetidas a algum tipo de análise quantitativa. Questões teológicas a respeito das qualidades mais subjetivas e aparentemente imensuráveis, como a força da caridade cristã, ou a comparação do amor humano com o amor de Cristo, ou os meios pelos quais a qualidade da graça aumenta na alma, eram rotineiramente tratadas como problemas de quantificação, e sujeitas à análise de acordo com os últimos desenvolvimentos na lógica e na matemática da mensuração. (Kaye, 2004, p. 3)

8. As contribuições do Merton College e da Universidade de Paris

No que se refere à Filosofia Natural, os pensadores que contribuíram mais decisivamente para o movimento de quantificação foram os filiados ao Merton College, da Universidade de Oxford, e depois os da Universidade de Paris. Citando Kaye mais uma vez:

Nos primeiros anos do século XIV, filósofos da natureza associados ao Merton College, Oxford, iniciaram uma nova abordagem vital para o estudo do movimento e da mudança qualitativa. Tais estudiosos, agora conhecidos coletivamente como a “Escola de Merton” (Merton School), ou os “Calculadores de Oxford” construíram uma lógica e uma matemática da mensuração altamente técnicas. Eles aplicaram regras matemáticas e esquemas quantitativos a um amplo domínio de questões filosóficas referentes a qualidades e movimentos, incluindo a questão do movimento no espaço. Com o processo de refinar sua análise lógico-matemática da mudança qualitativa, os Calculadores estabeleceram os fundamentos de uma futura Física matemática.

Por volta do segundo quartel do século XIV, mestres da Universidade de Paris começaram a adotar os interesses e métodos dos Calculadores ingleses. Ao fazer isso, a paixão por medir e quantificar que caracterizava a protociência das calculationes rapidamente invadiu todos os setores do pensamento escolástico. (Kaye, p. 3)

Entre os escolásticos da Universidade de Paris, o mais destacado no que se refere à matematização da Física foi Nicole Oresme (c. 1323-1382). Do ponto de vista da história dessa tradição no pensamento escolástico, o pioneiro foi Pierre Duhem. Como diz Sylla em “Medieval quantification of qualities: the “Merton School” ”,

De acordo com a teoria aristotélica, quantidades e qualidades pertencem a categorias separadas. Seria possível supor, portanto, que teóricos aristotélicos não tentariam quantificar qualidades. Durante a Idade Média, entretanto, teóricos basicamente aristotélicos em sua abordagem tentaram quantificar qualidades. A abordagem medieval da quantificação de qualidades que até agora recebeu mais atenção de historiadores modernos é a de Nicole Oresme, que distinguiu claramente entre intensidade e extensão qualitativa e propôs métodos geométricos de representar as configurações de qualidades com base em tal distinção.

No período desde quando Pierre Duhem pela primeira vez tornou famosas as configurações de qualidades de Nicole Oresme, outros historiadores descobriram que o trabalho dele foi precedido e não seguido pelo trabalho, um tanto semelhante, de autores do Merton College, Oxford.” (Sylla, 1971, p. 9).

A relação desse movimento com o dinheiro é bem explicada nesta outra passagem:

O que é mais surpreendente nos Calculadores é sua tentativa “frenética” (frenzied) de estender a mensuração e a quantificação às mais variadas e subjetivas qualidades. Isso entretanto é precisamente o que estava ocorrendo em torno deles à medida em que sua sociedade tornava-se monetizada. O preço em dinheiro de uma mercadoria representava a extensão de um sistema de mensuração comum e objetivo a um domínio de valorização subjetiva. O preço de um objeto é, simplesmente, a expressão de seu valor numérico, a quantificação de sua qualidade. Como disse Karl Polanyi, “A característica específica do uso do dinheiro em pagamentos é a quantificação” (1968, p. 182). Na verdade, todo artigo no mercado é medido quantitativamente, e cada venda demonstra a eficácia dessa medida padronizada na superação de problemas complexos de valorização. (Kaye, 1988, p. 256)

9. Tomás de Aquino e a troca justa

As reflexões dos escolásticos são extremamente abstratas, logicamente muito sofisticadas e intrincadas. Uma exposição sobre seu desenvolvimento extrapola os limites deste trabalho. Vou apenas mencionar um conceito fundamental no debate, o de latitude das qualidades (latitudo qualitatum), ou das formas (latitudo formarum). A origem do conceito encontra-se nas ideias de Tomás de Aquino a respeito do preço justo.

Por volta do segundo quartel do século XIV, nos escritos dos Calculadores e no trabalho de certos filósofos da natureza, a latitude passou de uma descrição de uma faixa abstrata de valores a algo tendo existência real enquanto um contínuo de mensuração fisicamente identificado como a intensidade num dado ponto. Passou a ser imaginado (nas palavras de Edith Sylla), no modelo da “linha geométrica”, como “um contínuo homogêneo” composto de partes qualitativas. (Kaye, 2004, p. 187)

Para substanciar suas teses referentes ao papel do dinheiro na matematização do conhecimento da natureza, além de proposições gerais, Kaye expõe e discute passagens de determinados autores. Como exemplos, vale a pena registrar duas delas.

Referindo-se a um texto de Henry de Ghent [1217-1293], diz Kaye

Uma das primeiras questões econômicas que provocaram esse reconhecimento de que o dinheiro mede e quantifica a indigentia [no sentido de ‘carência’] diz respeito ao preço justo e à permissibilidade do lucro do comerciante. Seria lícito revender alguma coisa por mais do que se havia pago por ela? Essa questão era crítica. Se assim for, de onde viria essa superabundantia – o valor acrescentado? Tal questão era crítica para a manutenção da ideia da igualdade na troca.

A partir do século XIII, a resposta em geral dada tem dois níveis: revender por mais é violar a “igualdade natural”, a não ser que a mercadoria revendida tenha sido melhorada pelo trabalho. Embora consciente do caráter tradicional de suas posições a respeito da economia, Henry de Ghent pertencia ao grupo de pensadores que permitia aos comerciantes expandir a igualdade aritmética entre o preço de compra e o de venda pela cobrança pelo trabalho de transporte, que ele considerava um melhoramento legítimo. Além disso ele reconhecia que havia qualidades mentais que o comerciante de sucesso empenhava nessa tarefa, as quais incrementavam o valor de seu trabalho. Sabendo onde e como comprar e vender, a “expertise” e o “cuidado” tinham um valor em si mesmos – valor que podia ser medido, traduzido em termos monetários, e legitimamente acrescentados ao custo de mercadoria. Até algo tão efêmero como a boa reputação do comerciante podia ser traduzido em termos monetários e legitimamente adicionados ao preço de revenda. (Kaye, 2004, p. 139-140):[1]

O segundo comentário refere-se a Jean Buridan (1300-1358), e impressiona pela sofisticação da análise desenvolvida.

Buridan esquadrinhou mais profundamente a questão: como poderiam dois serviços diferentes serem comparados e comensurados e, mais intrigantemente, como poderia uma quantidade monetária (o preço expresso em números) ser comensurável com uma entidade incorpórea tal como um serviço prestado? Ele inicia sua resposta observando que à primeira vista a medição de serviços parece impossível. A seguir, para ilustrar que tais medições eram tanto possíveis quanto comuns, ele escolheu (o que nos parece) um exemplo extremo desse fenômeno, que entretanto fazia sentido no contexto de sua sociedade.
Buridan apresentou seu argumento a um questionador imaginário: Suponha que alguém lhe deu dez libras e você em troca expressou o reconhecimento grates Domine. Você dirá, sem dúvida, que as dez libras que recebeu valiam mais que seu agradecimento e assim, que não houve igualdade na transação. Considere porém que todo valor no mercado é relativo, e estimado de acordo com as necessidades humanas. Imagine que o doador das dez libras é muito rico, e portanto tem pouca ou nenhuma necessidade do dinheiro, mas muita necessidade de honra. Imagine também que quem recebe o dinheiro é um homem de grande honestidade e bondade. Em tal situação, diz Buridan, o simples grates Domine do pobre constitui uma compensação correta e proporcional para as dez libras do rico. Nesse exemplo elegante, não apenas se encontra um preço para um serviço aparentemente imensurável, mas o preço é “justo”, isto é, representa uma equalização do valor entre o comprador e o vendedor. (Kaye, 2004, p. 143)[2]

10. A inexistência de medições

Um aspecto da maior importância no trabalho dos Calculadores é a ausência de medições. Como diz Anneliese Maier:

Vezes sem conta os filósofos do século XIV contentavam-se com entender a maneira de conhecer sem buscar o próprio conhecimento.
Tal atitude produziu – ou talvez tenha derivado de – uma deficiência incomum na “nova física” do século XIV: ninguém media coisa alguma. Os filósofos não apenas se recusavam, mesmo nos casos mais simples, a procurar maneiras e meios de fazer medições indiretas, mas também ignoravam a oportunidade de fazer medições diretas, quando isso era claramente factível. Contentavam-se com valores quantitativos aproximados em seus experimentos e induções, e em seus cálculos utilizavam magnitudes arbitrárias determinadas a priori ou ficavam no nível abstrato de computações usando apenas letras. (Maier, 1982, p. 168-9; MzC, p. 227-8)

Tendo em mente a distinção entre quantificações e mensurações exposta na seção 1, pode-se dizer que os escolásticos tudo quantificavam, mas nada mediam. A passagem de uma etapa à outra só veio a se realizar quase dois séculos depois, pelos fundadores da ciência moderna, com destaque para Galileu, Kepler e Descartes. A tarefa de executar mensurações nada tem de simples, ou óbvio; pelo contrário, além de conhecimento teórico exige do investigador grande dose de engenhosidade, de capacidade de inventar expedientes para resolver problema práticos, atributos dos quais Galileu era notavelmente dotado (Mariconda & Vasconcelos, 2020, p. 337). À guisa de ilustração, relaciono a seguir vários episódios das atividades de Galileu voltadas para a mensuração.

11. As mensurações de Galileu

Em 1586 Galileu inventa uma balança hidrostática, cuja função é medir o peso específico de corpos. Ele a denominou a “balancinha” (bilancetta). Nos anos seguintes, projetou e produziu para a venda o “compasso geométrico-militar”, que não era propriamente um instrumento de medição: não servia para medir, mas para facilitar os cálculos baseados nos resultados de medições, tendo em vista a solução de problemas práticos. O sucesso comercial do empreendimento atesta a eficácia do aparelho. As contribuições mais notáveis de Galileu para a matematização da física foram fruto de suas investigações sobre a queda dos corpos, o plano inclinado e o pêndulo, nas quais a medição de curtos períodos desempenha um papel essencial. O expediente inventado por ele envolvia um balde cheio de água, com um pequeno orifício no fundo, e tinha como pressuposto a proporcionalidade entre a duração dos períodos de tempo e a quantidade de água escoada nos respectivos períodos, medida por meio de uma balança. Além desses expedientes,

Galileu investigou também os fenômenos térmicos, inventando um aparelho para a medida da temperatura. Contudo, não se pode dizer que tenha inventado o termômetro, pois seu aparelho apresentava muitos defeitos: o nível do líquido no tubo em que devia ser feita a leitura da temperatura dependia, na verdade, não apenas da temperatura procurada, mas também da pressão atmosférica externa. Apesar disso, a tentativa de Galileu é considerada como o embrião a partir do qual Torricelli, um dos últimos discípulos de Galileu, chegou à invenção do barômetro (cf. Dijksterhuis, 1986, p. 359-64). Mesmo no final de sua vida, Galileu procurou construir, sem êxito, um relógio de pêndulo que fornecesse uma medida exata de pequenos intervalos temporais. Essas tentativas, apesar de malsucedidas, mostram claramente a consciência que Galileu tinha da importância, para a física clássica, dos instrumentos de medida, isto é, de aparelhos técnicos, de artefatos que permitissem observações e medições cada vez mais precisas (Mariconda & Vasconcelos, 2020, p. 337).[3]

12. A matemática de Galileu

A filosofia está escrita neste grandíssimo livro que continuamente nos está aberto diante dos olhos (eu digo o universo), mas não se pode entender se primeiro não se aprende a entender a língua e conhecer os caracteres, com os quais está escrito. Ele está escrito em língua matemática, e os caracteres são triângulos, círculos e outras figuras geométricas, meios sem os quais é impossível entender humanamente qualquer palavra; sem estes vaga-se em vão por um escuro labirinto. (Galileu, [1623] 1999, p. 46.[4]

Nos dias de hoje, pode causar estranheza que Galileu relacione como caracteres do livro da natureza “triângulos, círculos e outras figuras geométricas”, e não números, associados mais essencialmente à visão quantitativa da realidade. O que há de geométrico, p. ex., na mensuração da temperatura? A explicação encontra-se em Mariconda & Vasconcelos:

Para apreciar o uso que Galileu faz da matemática disponível em sua época, é preciso separar dois aspectos da matematização da física: de um lado, considerar a matemática efetivamente empregada por Galileu em suas investigações e na qual ele está obrigado a expressar os resultados; de outro, a matemática tomada como modelo de ciência e de exposição científica sistemática.

No caso da matemática efetivamente empregada por Galileu, a análise das observações e dos experimentos e, especialmente, as conceituações e usos de grandezas físicas, tais como as de espaço, tempo, velocidade e aceleração, estão formuladas na linguagem da teoria geométrica da proporcionalidade e da semelhança de figuras, exposta nos Livros V e VI dos Elementos de geometria de Euclides. Essa base na proporcionalidade geométrica será responsável por limitações da expressão matemática de Galileu, próprias de quem está trabalhando no alvorecer da adoção da álgebra, da geometria analítica e do desenvolvimento do cálculo. (Mariconda & Vasconcelos, 2020, p. 292)

13. O utilitarismo como força quantificadora; as ideias de Bentham

O programa matematizador de Galileu, Kepler e Descartes, como se sabe, foi extraordinariamente bem sucedido, particularmente na esteira da obra de Newton. A abordagem matemática foi gradativamente se estendendo, da Física para a Química, a Biologia, Geologia, etc., e depois, no campo das ciências humanas, para a Sociologia e a Psicologia. Por outro lado, é bom lembrar que a Astronomia já era matemática desde o início na Antiguidade. A Economia já nasce marcada pelo quantitativo, dada a centralidade do dinheiro, mas sua quantificação recebe um significativo avanço proveniente do Utilitarismo de J. Bentham, que merece uma menção, dada a influência que teve sobre a Economia Política.

O cerne do utilitarismo benthamiano, tal como exposto em Uma introdução aos princípios da moral e da legislação (Bentham [1789] 1979) pode ser analisado em três momentos lógicos: reduçãoquantificação, e maximização.

Redução: o utilitarismo reduz todos os sentimentos, emoções e valores humanos a uma única dimensão, a da polaridade felicidade/infelicidade, ou prazer/dor. Em suas palavras:

A natureza colocou o gênero humano sob o domínio de dois senhores soberanos: a dor e o prazer. Somente a eles compete apontar o que devemos fazer, bem como determinar o que na verdade faremos. (Bentham, ([1789] 1979, p. 17).

Quantificação: O capítulo IV do livro em pauta tem por título “Método para medir uma soma de prazer ou de dor”. Cada prazer ou dor tem um valor, medido de acordo com um determinado método. O núcleo do método é descrito da seguinte maneira:

Para uma pessoa considerada em si mesma, o valor de um prazer ou de uma dor, considerado em si mesmo, será maior ou menor, segundo as quatro circunstâncias que se seguem:

  • A sua intensidade.
  • A sua duração.
  • A sua certeza ou incerteza.
  •  A sua proximidade no tempo ou a sua longinquidade. (Ibid, p. 16).

Maximização: O termo “utilidade”, do qual deriva o nome da doutrina, figura na expressão “princípio da utilidade”, sendo tal princípio apresentado por Bentham como o fundamento da doutrina. Seu enunciado é o seguinte:

Por princípio da utilidade entende-se aquele princípio que aprova ou desaprova qualquer ação, segundo a tendência que tem a aumentar ou diminuir a felicidade da pessoa cujo interesse está em jogo, ou, o que é a mesma coisa em outros termos, segundo a tendência a promover ou comprometer a referida felicidade. (Ibid., p. 4)

Tempos depois da publicação do livro, Bentham passou a usar “máxima felicidade” (“greatest happiness or greatest felicity principle”) no lugar de “utilidade” – com isso deixando mais evidente o caráter maximizador do princípio. Este, por sua vez, reflete-se no nome dado por ele ao método para se obter a maximização da utilidade, a saber, Cálculo Hedonístico (Felicific Calculus) que ‒ para usar um conceito muito em voga nos dias de hoje ‒ constitui um algoritmo.

Há uma semelhança entre as concepções de Bentham e as ideias dos escolásticos, de medir entes como a força da caridade cristã, o amor humano, o amor de Cristo etc. O empreendimento que realizaram foi o de uma quantificação, formulada em termos tão abstratos que não se vê como poderiam ser colocadas em prática, chegando assim à mensuração. No caso de Bentham, essa deficiência não impediu que tivesse uma enorme influência, enquanto pai do Utilitarismo.

14. Marx contra Bentham

Como se sabe, Marx foi um ferrenho crítico de Bentham. No estilo agressivo-humorístico em que era mestre, diz ele: “Mas o preconceito só foi fixado em dogma pelo arquifilisteu Jeremy Bentham, o oráculo insipidamente pedante e fanfarrão do senso comum burguês do século XIX.” (Marx, Capital I, p. 684) e: “E foi com todo esse lixo que nosso homem, cuja divisa é nulla dies sine linea, encheu montanhas de livros. Tivesse eu a coragem de meu amigo H. Heine, chamaria o senhor Jeremy de gênio da arte da estupidez burguesa.” (Ibid, p. 685, nota de rodapé 63) Essa diatribe é muito citada ou mencionada, com admiração, pelos fãs de Marx. Vale a pena notar que, n’A ideologia alemã, (p. 448 ss.), Marx e Engels expõem uma crítica bem educada, e pertinente, do utilitarismo de Bentham. Mas essa crítica, a meu ver, não explica nem justifica os termos abusivos usados por Marx n’O Capital. Digo isso porque Bentham, além de filósofo, era um ativista, um reformador social, empenhado na defesa de políticas progressistas, avançadíssimas para seu tempo, incluindo:

  • ·  Estado de Bem-Estar Social
  • ·  Liberdade individual e econômica
  • ·  Anti-imperialismo
  • ·  Estado laico
  • ·  Liberdade de expressão
  • ·  Direitos das mulheres
  • ·  Direito ao divórcio
  • ·  Descriminalização do homossexualismo
  • ·  Abolição da escravidão; da pena de morte; da punição física, inclusive das crianças
  • ·  Direitos dos animais[5]

Fica a pergunta: como explicar a bronca contra Bentham que Marx expressa nessas passagens d’O Capital? Como a diferença de posições em relação ao utilitarismo por si só não a explica, que razões podem ter existido?

15. O triunfo da matematização: o lema de Lord Kelvin

Passando agora do fim do século XVIII para o do século XIX, na sumaríssima história da quantificação e mensuração que estou expondo, não pode ficar de fora a citação a seguir. Ela demonstra o enorme sucesso do projeto de mensuração que marcou o nascimento da ciência moderna.

Quando podemos medir aquilo de que falamos e expressá-lo em números, sabe-se algo a seu respeito; quando não podemos expressá-lo em números, nosso conhecimento é pobre e insatisfatório; pode ser o começo do conhecimento, mas em nosso pensamento, mal avançamos em direção ao estágio da ciência, seja qual for a questão” (Thomson (Lord Kelvin), 1891, p. 73; MzC p. 228).

16. A cientometria

Esta seção versa sobre o episódio em que a ciência volta-se a si própria, tomando-se como objeto de investigação, a ser empreendida por uma disciplina. Sendo a ciência moderna quantitativa, e sendo adotado o dogma de Lord Kelvin, segue-se que a nova disciplina deve ser quantitativa. O autor usualmente considerado seu fundador foi o físico e historiador da ciência e da tecnologia inglês Derek de Solla Price (1922-1983). O termo scientometrics, entretanto, foi cunhado pelo pensador russo Vasily Nalimov (1910-1997), que chegou a ideias semelhantes às de Price de forma independente. Foi introduzido como tradução do russo naukometriya, título da monografia Nalimov & Mul’chenko (1969). Durante o período inicial, usou-se também o termo science of science para designar a nova disciplina. Com o lançamento da revista Scientometrics, em 1969, entretanto, esse termo passou a preponderar (contrariando Price, que preferia science of science). O título do primeiro capítulo de Little science, big science é “Prologue to a science of science”. No prefácio, o autor pergunta: “Porque não aplicar as ferramentas da ciência à própria ciência? Porque não medir e generalizar, formular hipóteses, e derivar conclusões?” (Price,1963, p. v).

Nesta seção trataremos apenas da contribuição de Price. A história de como ele chegou a suas ideias no campo da cientometria é curiosa. Em suas palavras:

Em 1949, estava filiado ao Raffles College (agora Universidade de Singapura) quando a biblioteca, ainda não construída, recebeu uma coleção completa (1662-1930) das Philosophical Transactions of the Royal Society of London. Ficando responsável pela guarda dos belos volumes encadernados em couro, arrumei-os em pilhas de dez anos nas estantes ao lado da cama. Durante um ano os li do princípio ao fim, obtendo assim minha formação inicial enquanto historiador da ciência. Como um resultado colateral, observando que as pilhas formavam uma nítida curva exponencial contra a parede, contei todas as coleções de revistas que pude encontrar e descobri que o crescimento exponencial, num ritmo surpreendentemente rápido, era aparentemente universal e notavelmente duradouro. (Price, 1986, p. xix)

Si non è vero, è bene trovato. Animado com sua descoberta, Price a apresentou no VI Congresso Internacional de História da Ciência, realizado em Amsterdam em 1950, mas a exposição e o texto publicado (Price, 1951) caíram no vazio. Desmotivado pela falta de interesse dos historiadores da ciência Price só retorna ao tema quase dez anos depois (já nos Estados Unidos, onde havia se radicado em 1957). Os frutos da retomada foram expostos na quinta e última conferência de um ciclo ministrado na Universidade de Yale em 1959. Dessa vez a repercussão foi bem animadora, sendo as conferências publicadas como um livro, Science since Babylon (Price, 1961; 1975). Avançando na realização de estudos cientométricos, o passo seguinte foi a publicação de Little science, big science, que veio a ser considerado o marco do nascimento da cientometria (Price, 1963; 1986).

17. Crescimento exponencial da ciência: evidências e implicações

No primeiro capítulo do livro mencionado, encontra-se uma passagem que dá uma boa ideia do desenvolvimento das investigações do autor que vieram na esteira do insight com as Philosophical Transactions:

Nosso ponto de partida será a evidência empírica estatística extraída de muitos indicadores numéricos dos vários campos e aspectos da ciência. Todos eles demonstram, com impressionantes consistência e regularidade que, se qualquer segmento da ciência suficientemente grande é medido de qualquer maneira razoável, o modo normal de crescimento é exponencial. Ou seja, a ciência cresce como um juro composto, multiplicando sua dimensão segundo um valor fixo em períodos iguais de tempo. Matematicamente, a lei do crescimento exponencial resulta da simples condição de que em qualquer momento a taxa de crescimento é proporcional ao tamanho da população ou à magnitude total já alcançada – quanto maior é uma coisa, mais rapidamente ela cresce. […]

Pode parecer inicialmente que o estabelecimento de tal lei empírica do crescimento da ciência não seria inesperado, nem significativo. Ela tem, entretanto, várias características notáveis, e dela podem ser extraídas algumas poderosas conclusões. Na verdade, a lei é de tão longo alcance que não hesito em sugeri-la como a lei fundamental de qualquer análise da ciência. (Price, 1986, p. 4, itálico acrescentado)

A rapidez do crescimento exponencial de uma grandeza é função de uma constante. A maneira mais intuitiva de expressá-la é a que especifica o período de tempo necessário para que a grandeza dobre de tamanho. Dependendo do aspecto considerado, a constante de duplicação estimada por Price para a ciência variava entre 10 e 15 anos. Para ilustrar a rapidez avassaladora do crescimento da ciência, sendo essa a dimensão da constante, nosso autor vale-se de alguns exemplos. Um deles, muito citado, refere-se ao número de cientistas. Segundo seus cálculos aproximados, entre todos os cientistas que existem, e já existiram, de 80% a 90% estão vivos a cada momento. “Podemos sentir falta de Newton e Aristóteles, mas felizmente a maioria dos cientistas ainda está conosco!” (Price, 1975, p. 176). Outro exemplo diz respeito ao número de revistas:

A constante no caso é na verdade cerca de 15 anos para a duplicação, que corresponde à décima potência em 50 anos, e a um fator de 1.000 num século e meio. Nos trezentos anos que nos separam de meados do século XVII, isso representa um fator de um milhão. (Price, 1975, p. 169)[6]

Entre as implicações da lei do crescimento exponencial da ciência, a mais importante, a que tem consequências práticas mais sérias, é o reconhecimento da impossibilidade de que tal ritmo de crescimento seja mantido indefinidamente. No que se refere ao número de cientistas, p. ex., para manter o crescimento exponencial, num período de tempo não muito longo, todos os seres humanos precisariam tornar-se cientistas. A conclusão é a de que tal ritmo de crescimento deveria diminuir e, como se pode imaginar, tal redução acarreta problemas sérios para a comunidad e científica – como o desemprego dos recém-doutores, que não encontram mais vagas para ingresso na carreira acadêmica. Desde o início, Price esteve ciente do caráter insustentável do crescimento exponencial ilimitado, e não se furtou a prescrever medidas no campo das políticas científicas no sentido de administrar da melhor forma possível o ajuste que se fazia necessário.[7]

18. Neoliberalismo e quantificação

Na introdução acima foi dito que esta colagem consiste num “estudo histórico sobre o processo de quantificação, presente tanto no capitalismo quanto na ciência moderna, impulsionado em ambos pelo uso do dinheiro, enquanto uma entidade essencialmente quantitativa.” O capitalismo e a ciência moderna constituem, na modernidade, forças quantificadoras – mutuamente reforçadoras – das sociedades e do autoentendimento das sociedades.

O neoliberalismo pode ser caracterizado como a fase do capitalismo em que seus princípios são radicalizados, exacerbando a tendência em transformar tudo em mercadoria, com base no dogma da excelência do mercado como princípio regulador da vida econômica e social das sociedades. Nesse processo, intensifica-se também a força quantificadora do capitalismo.

David Harvey é um dos mais detacados analistas do neoliberalismo. Em A brief history of neoliberalism  ele o caracteriza assim:

O neoliberalismo é em primeiro lugar uma teoria das práticas político-econômicas que propõe que o bem-estar humano pode ser mais bem promovido por meio do fomento às liberdades e capacidades empreendedoras individuais no âmbito de uma estrutura institucional caracterizada por sólidos direitos de propriedade privada, livres mercados e livre comércio. O papel do Estado é criar e preservar uma estrutura institucional apropriada a essas práticas; o Estado tem de garantir, por exemplo, a qualidade e a integridade do dinheiro. Deve também estabelecer as estruturas e funções militares, de defesa, policiais e legais requeridas para garantir direitos de propriedade privada e para assegurar, se necessário pela força, o funcionamento apropriado dos mercados. Além disso, se não existirem mercados (em domínios como a terra, a água, a educação, a assistência médica, a segurança social ou a poluição ambiental), estes devem ser criados, se necessário pela ação do Estado. Mas o Estado não deve aventurar-se para além dessas tarefas. As intervenções do Estado nos mercados (uma vez criados) devem ser mantidas num nível mínimo, porque, de acordo com a teoria, o Estado possivelmente não possui informações suficientes para prever os sinais do mercado (preços), e porque poderosos grupos de interesse vão inevitavelmente distorcer e viciar as intervenções do Estado (particularmente nas democracias) em seu próprio benefício. (Harvey, 2005, p. 2)

Um bom quadro do impacto do neoliberalismo sobre os indivíduos é esboçado é esboçado por Dardot e Laval em A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal.

O neoliberalismo não destrói apenas regras, instituições, direitos. Ele também produz certos tipos de relações sociais, certas maneiras de viver, certas subjetividades. Em outras palavras, com o neoliberalismo o que está em jogo é nada mais nada menos que a forma de nossa existência, isto é, a forma como somos levados a nos comportar, a nos relacionar com os outros e com nós mesmos. O neoliberalismo define certa norma de vida nas sociedades ocidentais e, para além dela, em todas as sociedades que as seguem no caminho da “modernidade”. Essa norma impõe a cada um de nós que vivamos num universo de competição generalizada, intima os assalariados e as populações a entrar em luta econômica uns contra os outros, ordena as relações sociais segundo o modelo do mercado, obriga a justificar desigualdades cada vez mais profundas, muda até o indivíduo, que é instado a conceber a si mesmo e a comportar-se como uma empresa.[8] Há quase um terço de século, essa norma de vida rege as políticas públicas, comanda as relações econômicas mundiais, transforma a sociedade, remodela a subjetividade. (Dardot & Laval, 2016, p. 16)

Notas


[1] Em “Marx discípulo de Aristóteles” (MzC, p. 225, nota 33), menciono o epíteto “o último dos escolásticos”, atribuído a Marx pelo historiador da Economia Richard Tawney (1948, p. 36). O epíteto se justifica pelos elementos do pensamento de Aristóteles compartilhados por Marx e pelos escolásticos.  Mas também há divergências, uma vez que, distinguindo esfera da produção e a da circulação ou seja, do comércio, Marx restringe a criação de valor à esfera da produção. (Cf. “Nota sobre o conceito marxista de Modo de Produção” (Oliveira, 2024).

[2] É possível que Marx tenha se inspirado nessa passagem ao escrever: “Assim, coisas que em si mesmas não são mercadorias, como a consciência, a honra etc. podem ser compradas de seus possuidores com dinheiro e, mediante seu preço, assumir a forma-mercadoria”. (Marx ([1867] 2013) (O Capital, Livro I) p. 177)

[3]. O empenho de Galileu em realizar medições deu origem a uma dessas citações que muitos autores repetem, sem que nenhum indique a fonte. Ao que tudo indica, a atribuição não é verídica. A frase é “Meça o que é mensurável, e torne mensurável o que não o é” (Kleinert, 2009).

[4] A tradução transcrita é de Mariconda & Vasconcelos (2020, p. 148).

[5] O verbete “Jeremy Bentham”, da Wikipedia, registra as fontes que abonam essa atribuição de posições a Bentham. (Acesso em 8/12/2023)

[6] Segundo estimativas recentes, (Larsen & von Ins, 2010; Bornman & Mutz, 2015) o período de duplicação do número de publicações nessa época foi cerca de 9 anos.

[7] Em outros artigos, tratei de um outro aspecto da quantificação da ciência, a saber, o que diz respeito à administração das atividades de pesquisa. Meus estudos me levaram à interpretação segundo a qual nas últimas décadas a administração foi objeto de processos de empresariamento, entendidos como os que introduzem princípios e métodos próprios de empresas privadas na administração da Academia. Uma das facetas desses processos é a atribuição de um papel central às avaliações quantitativas, tanto na Academia quanto em órgão públicos e, pioneiramente, nas empresas privadas. (Cf. MzC, cap. 9)

[8] Uma manifestação formal desse empresariamento do indivíduo, aqui no Brasil, é o processo de “pejotização” a que são forçadas muitas categorias de trabalhadores ‒ entre os quais a daqueles que adotam o empreendedorismo como estratégia de vida.

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O Agente Secreto: Nadando em um mar de tubarões

Um rolê pelas ruas, cores, sonhos, pesadelos, caras e corpos, vivos e mortos, do filme-marco do cinema nacional, no embalo de suas canções. O convite é claro: evocar o passado aos pedaços, como uma perna arrancada. E mostrar que a ditadura não é monopólio dos milicos: está no ar, como o cheiro de carniça

Contém spoiler, porque comentário de filme que não contém spoiler é release. Pra quem ainda não viu o filme: veja. E tenham suas próprias opiniões. A seguir, vão as minhas. Se você preferir, ao contrário do Groucho Marx, não tenho outras. Por enquanto.

A primeira coisa a considerar é o óbvio: O Agente Secreto é um filme, como diria o Buscapé, de Cidade de Deus, legal pra caramba. É bom, bem bom, de ver, ouvir, e quase tocar. O Fusca amarelo é bacana demais, o calor é palpável nas cores quentes do filme e dá vontade de desabotoar a camisa como o motorista — Wagner Moura mais charmoso que Belmondo. A viatura, uma Brasília caindo aos pedaços que logo encosta, ameaçadora, não fica pra trás. E eu quero carona no Corcel branco que atravessa carnavalescamente aquele posto Esso avançado do subdesenvolvimento em 1977, entre um mar de cana pré-pró-álcool, com o tempo suspenso entre um cadáver apodrecendo ao sol e policiais (caricatamente) mal-encarados. O cheiro não é bom, mas cinema não tem cheiro, só a ideia do cheiro, então é bom. Ok, tá lá o corpo estendido no chão, os cachorros são os únicos interessados na carniça esquecida por Deus e na nossa humana condição de ser-para-morte a gravidade daquela presença não pode nos deixar indiferentes. Mas Heidegger não se cria em Pernambuco. E o espetacularmente barrigudo frentista tem preocupações de um ser-aí mais aqui: o colega ocasionalmente matador, o Ivanildo, fugiu do flagrante, e aproveitando o ensejo e o sacolejo, sumiu num bloco de carnaval. O dilema agora é entre o desemprego e a carniça, enquanto a polícia não vem. Aí ela vem, mas é pra achacar o moço do Fusca — eu já falei como o Wagner Moura está gato em sua versão retrô? —, e o Arquétipo do Policial Corrupto nos deixa na corda bamba: é pra ter medo de morrer ou pra oferecer um cigarrinho? Resposta certa: oferecer um cigarrinho.

Se isso não é uma abertura sensacional, com direito a um letreiro e uma grua que reforçam o gosto de road movie dos anos 70, mas virado do avesso brasileiro, qual outra você lembra que seja tão legal e tão do caramba?


O fim da viagem de Fusca é embalado pelas duas primeiras músicas de uma trilha não menos que antológica. Primeiro, Harpa dos Ares, espécie de recriação de Estudo no.2 de Villa Lobos, no espírito do mítico — tanto no sentido de busca espiritual como no de obra plena de conteúdos simbólicos — Peabiru, álbum de Zé Ramalho e Lula Cortês, experimental, cheio de misturas, psicodelia, referências indígenas, afros e nordestinas, incluindo imitação de pássaros e uma flauta hippie (https://open.spotify.com/intl-pt/track/6gQYDDGYsHYaot8ezTvmFD?si=ded704c684c946ae). Dessa antropofagia de alta voltagem, o dial de 1977 desliza para If you leave now, sucesso chiclete-global, campeão das festinhas de garagem daquela década pelo mundo afora (essa não precisa link, porque todo mundo conhece).

Em Recife, chegamos ao quase paradisíaco Edifício Orf, o refúgio perfeito. Predinho baixo, protegido dos males do mundo, com bandinha de carnaval, cerveja gelada e sorriso de boas-vindas, jardim com árvore e terra batida. Quase uma Ilha da Fantasia nordestina, com a mais simpática, popular e esperta das anfitriãs: D. Sebastiana, que oferece ao viajante um apartamento térreo, ensolarado e decorado com total aconchego e bom gosto simples e elegante, além de lhe providenciar algum dinheiro e um encaminhamento para um trabalho. Coroando a acolhida de Marcelo — é esse o nome dele (por enquanto) —, a matriarca daquela comunidade quase arembépica, com ares de resistência dissidente à Ditadura, não se aperreia em apresentar e cupidar, lépida e carinhosamente erótica, a vizinha Cláudia. O sorriso de Hermila Guedes equilibra as energias de sedução em seus polos cis hétero nem tão normativos, numa leveza livre, sem perguntas ou enredos para além da imediata atração, com o encontro (também) sexual de Marcelo e Cláudia, tempos depois, completando lindamente o já belíssimo quadro da vida do Edifício Orf. Nem a Rua dos Artistas de Aldir Blanc faria melhor.

Mas tem um lado B. Chegado, instalado, apresentado, banho tomado, Marcelo senta-se na nova sala, abre uma caixa, com fotos de uma mulher, feliz, sorridente, olhando pra câmera, ou seja, pra ele, desde algum lugar do passado. E faz então um ritual daquelas longínquas eras pré-históricas: põe um LP no toca-discos. Ele imóvel, encarando a mulher nas fotos, a música de Sósthenes Pereira Barreto entra rasgando, alta, dilacerante em sua levada irresistível, como quem corre com a namorada pela praia, sentindo o vento. (https://open.spotify.com/intl-pt/track/4P8ZOB09V1PhhRQBC5MbXj?si=ae766d3fcf3e4f3c)

Arranjei uma casa na beira do mar, lalaliáááá
Tem coqueiro e uma rede pra gente armar, lalaliáááá
E depois, o amor…

Se nesse momento você não está se segurando pra não sabe o que, se ficar de pé na cadeira do cinema e gritar, ou se enroscar no chão em posição fetal, lembrando de um amor que parecia morto e revive, da energia da juventude, que estava aqui agora mesmo, da esperança, de abraços e sonhos que a mão quase alcança… bom, se não rola contigo, aí o morto é você.

Amor, sentirei no teus braços
O mais lindo esplendor,
Depois, seguiremos a estrada
Não seremos só dois

Administrando o choque, ainda meio bêbados com a música, que se estende, sem cortes, pensamos: não seremos só dois? Filhos? Ou quem sabe faz a hora, e estaremos, estávamos, estaríamos, caminhando e cantando, todos? Pois é, é sobre isso.


Mas, não custa reforçar, cinema é imagem e som, e O Agente Secreto é uma festa. Cores, caras, corpos, cheiros, ruas, música e movimento. A magnífica fotografia, tão pernambucana, é da russa Evgenia Alexandrova — a artista finge tão completamente que finge ser cor local a cor que deveras sente no calor tropical. E a câmera de Kleber e Evgenia dança naquele redemoinho, tateando o mundo, rodopiando, indo atrás, indo na frente, correndo de um pro outro. Letra, imagem, música e ação. A jornada de um telegrama — secreto, mas prosaico, enviado pelo correio — vira um clipe de homenagem a Morricone, na hipnótica, quase militar, quase psicodélica Guerra e Pace, Pollo e Brace: https://open.spotify.com/track/4CikhurSvIAPkMF2o3LNEv?si=098f7dea73db4927.

Repetida outras vezes, é um achado, bem ao estilo das incorporações cinéfilas surpreendentes e muito criativamente eficientes de Kleber. Nem precisamos sacar a brincadeira do título e letra — “na guerra e na paz, peça frango na brasa” — pra sentir, pelo encaixe perfeito da música no enredo e no clima de thriller da montagem da sequência: entusiasma, eletriza, mas é pra ter medo, se é só um telegrama comum? Tão eletrizante como a cena de perseguição final, essa ao inverso, evidentemente dramática, de tiros, vida e morte, mas a pé, entre os botecos do centro de Recife, animada por um discursador meio pregador popular aleatório, ao som pegado dos Pífanos de Caruaru (ok, a perseguição na estrada corcoveante de One battle after another, de Paul Thomas Anderson é legal, mas meu Oscar particular de melhor perseguição de 2025 goes to The Secret Agent).

Em suas muitas ambivalências e tensões, naqueles anos 70 sensuais, vibrantes e transantes, é claro que O Agente Secreto, com todo seu embalo, não é um filme “good vibes”, com uma que outra cena bonita de drama romântico e outras de tensão pelo meio. Eu estou contando a história na ordem errada, como diz Marcelo quando se revela Armando. Omitir umas coisas é um jeito de contá-las, também. Guardemos essa ideia. Mas por hora, vamos rebobinar o filme, e perceber que ele é legal pra caramba também em suas (muitas) notas soturnas.

A grua do início não é gratuitamente atraída, como um centro de gravidade, pelo corpo morto. A presença da morte puxa uma fila que não para de invadir o quadro — como aqueles meninos-aparição, de O som ao redor, mas agora com um peso maior, de presença que vai se fazendo constante, sufocando o sol, afogando em sangue — como a cachoeira da Casa Grande do cartaz do filme anterior — a luz daquela gente, com Marcelo (que é Armando) no centro.

Do corpo abandonado aos policiais que podem ser folclóricos ou letais. Dali ao La Ursa, o urso carnavalesco que, ainda na estrada, se pendura na janela do Fusca em movimento, por tempo demais para uma brincadeira, se candidatando à versão pernambucana da galeria de monstros mascarados do terror. Na entrada de Recife, ainda embalados no melô de If you leave now, corta para o delegado Euclides, um delegado “clássico”, em interpretação memorável de Robério Diógenes, digno de um Pereio, mas com o palito e os óculos escuros substituídos por confete e um batom borrado na boca. É Carnaval. De novo: soturno ou hilário? A conversa de pé de ouvido com seus homens sugere que tem caroço no angu. Mas, mais importante e bem mais impactante, como narrar não é enfileirar ceninhas na cordinha da historinha, a dúvida é engolida por um enorme tubarão surrealistamente colocado sobre uma mesa em uma sala de aula. Ele, morto como o outro morto, também fede. Há algo de podre neste simpático balneário. Não é bem a fera concreta, pronta para devorar os banhistas sorrateiramente. Também não é exatamente como o segredo das águas poluídas que não deve ser revelado, como em Inimigo do Povo, peça de Ibsen para a qual o filme de Spielberg deu corpo, com uma enorme mandíbula. Aqui os corpos estão lá, estendidos no chão de terra do posto e na sala de aula. Aliás, não só o corpo do tubarão, e sua mandíbula filmada em detalhe, cheia de sangue e moscas, como uma perna humana, semi-devorada — é o reaparecimento dessa perna que os policiais parecem querer evitar. Como lidar com os corpos, entre vivos e mortos, lembrados e esquecidos? Tá lá a perna, na boca do tubarão. Até que a cientista responsável, pelo bem da clareza e precisão científica e legal, a arranque, com esforço, despejando litros de sangue fétido no chão e sobre si mesma. Os policiais preferiam que o Carnaval seguisse fervendo, que as pernas seguissem desaparecidas, e os tubarões seguissem nadando.

O lado ensolarado é, como sempre no terror — esse é um filme de terror? acho que sim…-, pontuado pelas sombras, e elas logo (mas não tão rápido — calma aí para os velozes e furiosamente viciados nas correrias narrativas) cobrirão as promessas de felicidade.

Muito mais carnaval que máquina narrativa, o filme vai costurando e modulando seu gingado, sua imaginação, medos e alegrias, como numa ampliação do exercício onírico de Fernando, o menino que, entre a falta da mãe, o abraço acolhedor dos avós e a saudade, a felicidade do reencontro e o pânico de perder de novo pai, navega lidando com o pesadelo do tubarão. Narrar é nos convidar pra entrar em águas assim, perigosas. Cabe a cada um mergulhar, ou não, nos sentidos e emoções. Só seguir os caminhos pré-fabricados dos twists é pra quem fica na beirinha, acovardado.

A pérola do momento do pai e filho, reencontrados, no Fusca, lidando com a ausência da mãe, Fátima, a sinceridade dura, sóbria e amorosa de contar para o filho que mãe não vai voltar, que o que eles têm é a lembrança dela, e a presença um do outro, que a volta do pai recompõe, é daqueles momentos raros, de intensa emoção e nenhum sentimentalismo. A interpretação de Wagner Moura é um primor de minimalismo e precisão digna da performance de Romário dentro da área ou dos contos de Raymond Carver. Perfeita e cada inflexão de voz, cada pequeno gesto — o menino está no banco de trás, a câmera frontal (em cinema, direção de atores é também direção de câmera, e Kleber sabe o que faz). Isso é assim aqui e em todo o filme, nessa atuação histórica, que vai sendo reconhecida mundo afora. O Marcelo Armando de Wagner é contido, e em cada pequena modulação revela seus abismos. A preocupação que passa para a tensão, no posto de gasolina, até encontrar o tom exato para oferecer o cigarrinho ao policial. O sorriso de suave alívio na chegada ao Orf, que sobe um tom ao trocar olhares com Cláudia — e depois o sorriso aberto quando está com ela, e o pânico total acordando ao seu lado de seu pesadelo. A fúria controlada de quem diz, do vilão Ghirotti: “eu poderia matar ele com um martelo”, e toda a contenção, como uma mola tensionada, na conversa reveladora na qual conta sua história. Como o próprio filme, Armando é um mundo, do qual vemos alguns relances, que nos sugerem muito mais. Como um tubarão, que às vezes vem à tona. Por exemplo, da delicada cena da lembrança de Fátima, ouvindo o LP, passamos direto pra apresentação da dupla de matadores do filme, Augusto e Bob (Bobi?), que logo saberemos que são também quase uma família (meio família, meio associação criminosa), enteado e padrasto — ao que parece o padrasto, e agora chefe, matou a mãe e criou o menino. Música, suspense noturno, assassinato a sangue frio, crueldade, esconderijo, carros bacanas — a vida é um filme, ou é ao contrário?

A bandidagem é uma atração à parte. Ou melhor, bem integrada. Porque pra todo lado tem bandido. Antes de Bobi Filho e Bobi Pai, já tínhamos o delegado Euclides e seus dois filhos, o branco, herdeiro natural da cafajestagem, e o negro, de criação (“painho”, diz ele, carinhosamente), todos policiais, e por consequência (fílmica, claro, exclusivamente fílmica) meio bandidos. O Agente Secreto também é drama familiar! E na forma da tradicional Família Brasileira que toma pra si as coisas que seriam públicas, da Pátria, se imaginando sob as bênçãos de algum Deus. Nesse espírito patriótico, o filme não se furta a mostrar como essa tradição não está só nos extratos mais humildes da bandidagem, alcançando as gentes mais finas e brancas — como se diz nas altas rodas, “só gente bonita”, ainda quando são feios. Como não admirar a simetria de composição entre a relação entre Bobi Pai & Bob Filho e Ghirotti — e seu também filho-quase-clone —, mandante do assassinato de Marcelo, com sua máscara de monstro quase tão evidente como do La Ursa da estrada (lembrando ainda Venceslau Pietro Petra, o Gigante de Macunaíma, também, como aquele outro, um brasileiro italiano monstruoso e comedor de gente), e, no outro par, o conluio entre Família de Painho Euclides com uma madame que ele protege do infortúnio de ter matado, por negligência, a filha da empregada, criando uma inacreditável delegacia/repartição pública semi-secreta e semi-falsa. É lá que Euclides, ex-coronel, atual “doutor”, cruza com Marcelo, recém-chegado na repartição de serviços de identidade (logo ele que é Armando) pelas mãos de uma rede de proteção, não sabemos bem do que — de modo geral, da Ditadura, subentende-se, claro.

A celebração da tradição rola no encontro noturno no camburão das duas famiglias de homens bandidos. Todos reunidos pra um “passeio”, o último, de uns presos que eles consideram indesejáveis. Que beleza a alegria do reencontro dos pais de famílias assassinos, que já mataram muito juntos, e agora passam aos seus filhos o seu legado.

O contraponto vem da boca rebelde de uma mulher. Fátima, a moça das fotos, com quem Marcelo Armando sonhava arranjar uma casa na beira do mar, com coqueiros, volta dos mortos, num flashback. Ghirotti, sucessor do Gigante Pietro Pietra, “consultor” da Eletrobrás, representante do braço industrial da milagrosa ditadura cívico-militar, faz, em 1974, uma visita-intervenção ao Depto. de Engenharia Elétrica da UFPE, do qual Armando e Fátima são professores. Seu objetivo é acabar com o departamento, em especial com uma pesquisa de Armando, de uma bateria para carros elétricos, que atrapalha o negócio que ele já fechou, em nome da Eletrobrás, com uma empresa canadense e, claro, em sociedade com sua própria empresa. Ghirotti Pai e Ghirotti Filho, que o acompanha em mais uma bela versão do patriarcado pátrio, são, pra dizer de modo direto, sebosamente nojentos. Racistas, esnobes, sempre com um sorriso e gestos de desdém, risinhos que lembram kkkks de redes sociais de 50 anos depois de sua (nem tão) ficcional existência. Eles são também poderosos, a ponto de exibir seu escárnio abertamente e acabar com pesquisas em princípio públicas. Fátima, negra, nordestina e professora da UFPE — o que parece um tanto insuportável aos Ghirotti — põe o dedo na cara dos paulistas que se acreditam italianos. Mas o que diz é mais forte, desprezando a indignidade de Ghirotti como homem e como pai, em contraste com a hombridade de Armando, ali presente, e de seu próprio pai, Alexandre, que ela reverencia como homem, pai e trabalhador. O Agente Secreto também é drama moral.

Mas antes de trazer a júri, moral e estético, o seboso Ghirotti, um destaque para Seu Alexandre, pai de Fátima, avô e pai de criação de Fernando e projecionista do Cine São Luiz.

Logo depois da briga em flashback, voltamos a 77, quando Armando relata o ocorrido a Elza, cabeça da tal rede de proteção a perseguidos. Seu Alexandre está ao lado dele. Contendo a emoção – de novo, sem sentimentalismo – ele pergunta se a filha morta falou mesmo dele naqueles termos. O genro confirma, e ele engole em seco. E é só, e tudo isso. Seu Alexandre é a dignidade encarnada. No cuidado com o neto, na relação com o genro, na coragem de recebê-lo em seu trabalho, seu Alexandre talvez seja a joia da coroa popular de O Agente Secreto: a enorme, pulsante, viva, massa de rostos e corpos brasileiros que enche a tela. O filme — de época, ou seja, caro e difícil em cada detalhe — não poupa esforços pra nos fazer mergulhar nessa massa. São casas, ruas, botecos, galerias, correios, esquinas, cinemas, no trabalho e no carnaval, um mundo aberto, cheio, lotado de gente. Gente nossa, com cor, textura, gestos e olhares da gente. A gente olha e se vê. Olha e é olhado. E isso, minha gente, não tem preço. Se o cinema não servir pra nos imprimir nos fotogramas, serve pra que? Todas as referências, todas as ideias cinematográficas, todas as histórias, estão escritas nessas carnes, com esse sangue. E é isso que Fátima, mulher porreta, diz pra Ghirotti, que, como os motoqueiros de Bacurau, tem orgulho de não ser desses, de são ser daqui, de ser da Itália: Seu Ghirotti Alexandre, aquilo é homem. Brasileiro.

E então, Ghirotti, o seboso. E com ele entramos na política, já que é ele o pivô da trama. Houve quem reclamasse do exagero de centrar o conflito de fundo numa perseguição a um projeto de pesquisa, e num personagem “esquemático”. Pra começo de conversa, que loucura inverossímil imaginar, hoje, no Brasil, a existência de personagens esquemáticos, toscos, sem profundidade psicológica, seres unidimensionais que só vivem para seus objetivos mesquinhos de poder e pequenas (ou nem tanto) corrupções. Né? Tem que ver isso daí no tocante disso daí, talkey!? Que triste a pobreza da dramaturgia pátria. Cada vez que um homem de bem clama por profundidade psicológica de personagens de direita, morre afogado um anjinho liberal na parte funda da piscina da história. Além disso, que lamentáveis são os personagens da Commedia dell´Arte e de Rabelais, os burgueses de Dickens, os vilões de Chaplin, o Diaz de Glauber Rocha e o já tristemente lembrado Venceslau Pietro Pietra, de Mário e de Joaquim Pedro… Que lembremos sempre que o que explica Kane, o magnata que manipula a nação, é Rosebud, seu delicado trenó da infância perdida, e que Santa Odete Roitman nos salve de tanta falta de sutileza desses narradores esquerdistas e seus vilanizados personagens burgueses, tão brutais e grosseirões.

Mas deixando de lado a figuração alegórica dos podres poderes do mundo, reverso do idílio do Edifício Orf, no quadro do passado entrevisto e reconstituído por seus fragmentos, vejamos as coisas sob o ângulo da objetividade sócio-política: que impropriedade imaginar um empresário que estabelece relações com o poder público para fazer negócios privados! Alguém tem que avisar o Tarcísio de Freitas que o Kleber Mendonça está lhe plagiando!

Ok, chega de ironias políticas. Vamos nos concentrar na representação da ditadura em O Agente Secreto. Não há militares — só dois ex, agora trabalhando no ramo da segurança, um como delegado, outro como freelancer. Enfim, Esquadrões da Morte. Mas militares, não. E toda a complexidade do Estado desenvolvimentista da Ditadura, da modernização conservadora, industrializante e concentratória, neocolonial e sudestina, tudo reduzido à figura de Ghirotti, o empresário que age nos vãos, que ocupa um cargo da Eletrobrás pra se beneficiar com informações e contratos, que esvazia a autonomia regional, desmantelando um centro de pesquisa em Recife — aliás, cidade-sede da Sudene do sonho de Celso Furtado —, capaz de perseguir pessoalmente quem o enfrenta, capaz de mandar matar um casal de pesquisadores que sabia de seus cambalachos, o que se torna especialmente perigoso no contexto do início do que viria a ser a Abertura. Ainda um pouco de cinema, para lembrarmos de alguns antecessores de Ghirotti: Fuentes, de Terra em Transe, concentra toda a burguesia de Eldorado. De modo mais realista, Arturo, o empresário de autopeças de São Paulo S/A se beneficiava de contratos escusos e de sonegação para se afirmar como fornecedor de uma montadora estrangeira. E numa chave contemporânea, com um pé no realismo e outro em tons expressionistas, há a dupla de engenheiros corruptores de O Invasor que mandam matar seu sócio por ganância e receio de denúncia.

A representação da situação política autoritária pelo viés dos interesses, reduzidos brutalmente à brutalidade, ao osso, dente, sangue, perna arrancada e tiro na cabeça, isso não é materialismo, não? Suspeito que Brecht chamaria de realismo.

No Recife de O Agente Secreto, a Ditadura está no ar, na perna arrancada pelo tubarão, roubada e jogada de novo no mar, nos passeios e na meta de cem mortos do carnaval do Dr. Euclides, na madame assassina protegida, no assassino que faz serviço de bicho e mata à luz do meio dia, nos negócios dos Ghirotti, na morte misteriosa de Fátima, no heroísmo discreto de Seu Alexandre e D. Sabastiana, como se tudo fosse um pesadelo de Fernando (herança do pesadelo de seu pai, que junta matadores, mortos e urso de carnaval) — que vai acabar esquecendo de tudo isso.

E nós, esquecemos? De Terra em Transe a Ainda estou aqui, muitas e muitas vezes o cinema brasileiro nos contou sobre essa noite e neblina, como Resnais chamou o seu filme de rememoração dos campos de concentração. E levemos a sério nossos inimigos, porque se a cada vez que um filme forte sobre a Ditadura aparece, a direita se enfurece, é porque essas escavações atrapalham a mitologização canalha dos herdeiros de Ghirotti e Euclides. Talvez o maior desses filmes seja Cabra Marcado para Morrer, do Coutinho. Num texto, sensacional desde o título — O fio da meada — sobre o filme, Roberto Schwarz diz uma coisa muito inteligente sobre sua parte final, de entrevistas com os filhos de João Pedro e Elizabeth Teixeira. Pessoas desarticuladas, frágeis e chorosas por suas dores de um jeito autocentrado, muito diferente da altivez de sua incrível mãe — que, aliás, em 2025 completou cem anos, e de quem D. Sebastiana e Seu Alexandre poderiam ser amigos. Sobre os filhos, Schwarz, escrevendo em cima do lançamento do documentário, em 1984, diz que nosso entendimento sobre eles vai depender da consciência histórica que prevalecer no Brasil. Se a ditadura for esquecida, as entrevistas parecerão um chororô sensacionalista. Se, ao contrário, se firmar com clareza a consciência de interrupção de construção popular de uma nação, aquele choro terá peso histórico.

O Agente Secreto toma suas providências para tratar da Ditadura. Porque, afinal, me repetindo, mas História é assim mesmo: é sobre isso. Armando morre. E isso já é acachapante, como final. E morre off, como nas tragédias gregas. Tudo que temos, sobre essa gente “pré-google”, como diz a bolsista que faz a transcrição das fitas do passado, é uma foto de jornal, com Armando morto a tiros. E algumas conversas, gravadas por Elza, que na verdade é Sara, a articuladora de uma pouco clara organização de apoio aos “refugiados”, como se chamam os moradores do Edifício Orf, que mudam seus nomes e, apesar da fraternidade que os une, pouco ou nada sabem uns dos outros. O clima idílico vai se misturando com o baixo contínuo do terror, ao mesmo tempo evidente como um tubarão no meio da sala (de aula) e enganador como o do filme – o outro, gringo. Até que, só na conversa com Elza, finalmente sabemos a história de Armando, Fátima e Ghirotti, acrescentado a nova informação de que o empresário pôs os dois matadores no encalço do protagonista e que ele tem que fugir do país. Sendo Ghirotti a cara da Ditadura no filme, cabe perguntar: e os milicos? Pois é, não estão (só os assassinos pé rapados). E em parte vem daí o efeito tubarão, o clima de que a violência pode vir de qualquer lugar, a qualquer momento. A Ditadura não é monopólio dos milicos. Está no ar, como o cheiro de carniça.

Abrindo o quadro: só quase na metade do filme sabemos do confronto entre Armando e Ghirotti. Até então, desrespeitando as pretensas regras de roteiro, várias dúvidas pairam: por que Armando se passa por Marcelo? Se ele é de Recife, por que e pra onde fugiu? E, mesmo depois que as coisas começam a ficar mais claras, por que Ghirotti contratou matadores? O que temos é um clima de paranoia, unindo de modo geral os monstros e os que querem viver — como diz Armando, quando se sabe jurado de morte, e como pulsa no filme o tempo todo, explodindo na cena de carnaval, pegando Armando e a nós de surpresa, quando ele sai, temeroso, da casa de seu Alexandre.

O Agente Secreto é road movie, drama familiar, musical, filme de suspense, e é assim, sem personagens e motivações definidas explicitamente como políticas, que ele é um filme sobre a ditadura. Ghirottii não é Ustra, Armando não é um Marighella (ainda que Wagner Moura tenha posto Marighella nas telas), e o motivo da volta dele a Recife é Fernando, seu filho assombrado por tubarões. O que há propriamente de repressão é a fúria da Perna Cabeluda, que fora perna de algum desafeto do delegado ou de seus amigos, e volta, digamos perneta, dos mortos, possuída de fúria repressiva e conservadora, atacando os gays da cidade e garantindo que a moral e os bons costumes impeçam qualquer subversão nos jornais das famílias recifenses (afinal, essa era a principal função da Perna Cabeluda, aliciada do Folclore pela Ditadura e posta para trabalhar cobrindo os cortes de jornal censurados — um versão mais divertida das receitas de bolo que jornais do Sul utilizavam para explicitar o silenciamento de suas matérias). É o momento gore e “terrir”, como chama o brilhantemente debochado Ivan Cardoso, de um filme que, através de toda sua profusão de fontes e matérias históricas, é um filme de terror, com alta carga política, sem o ser explicitamente. Em toda a primeira parte, antes da conversa com Elza, esse terror ronda, sem nome, podendo se encarnar em tudo e todos, como o Mal em O bebê de Rosemary. A partir daí, o tubarão ataca. Ameaçado de morte, com o tempo correndo para sua fuga, Armando tentará enfrentar os monstros, mas acabará morto, como a mãe de Fernando, que é o sobrevivente.

Mas sequer é através de Fernando — de certo modo equivalente aos filhos de D. Elizabeth, de Cabra para Morrer — que conhecemos a história de Armando e Fátima. A moldura narrativa é um presente desvitalizado e desmobilizado, no qual a violência da Ditadura é ainda “delicada” (as fitas são recolhidas), ou seja, intocável em seus fantasmas, de vítimas e algozes. A memória é clandestina, como o pen drive que Flávia — a jovem pesquisadora negra, moradora de periferia, com avô pernambucano e um filho pequeno e um companheiro, ecoando a dignidade da história que descobriu — pirateia das fitas gravadas por Armando e seus companheiros, e entrega a um Fernando já maduro, menos estrangeiro no lugar que no momento, em um banco de sangue, versão contemporânea e domesticada do sangue que escorre da tela dos anos 70 — mesmo lugar onde, na infância aterrorizada, ele assistiu Tubarão, com seu avô Alexandre. Sua história, aplacada num presente que, em suas cores pálidas e baixa intensidade, da qual ele mesmo parece preferir não saber, nos é dada a conhecer cheia de buracos. Buracos de bala de História, para frustração de quem preferia uma história ao estilo dos clássicos tubarões mecânicos do cinema americano. Pelo que sabemos, podemos — o filme nos interpela, nos convida a — imaginar e preencher as lacunas: Armando bateu de frente com Ghirotti, o acusou de agir em benefício próprio, devido ao contrato por ele estabelecido com a empresa canadense de carro elétrico, sob as bênçãos empresariais da Eletrobrás. A disputa explosiva levou à dissolução do Departamento de Engenharia Elétrica da UFPE e, ainda que não seja claramente dito, parece ter levado também à morte de Fátima. Quando Elza diz que Ghirotti é um assassino, a qual assassinato ela se refere? E por que o pacato Armando se declara capaz de matar Ghirotti com um martelo? Em 74, depois deste confronto pesado, Armando — detentor de uma inconveniente patente e chefe de departamento “cabeludo e comunista”, como diz o empresário “lesa pátria e assassino”, resume Elza — foge, temendo ser morto não pela repressão política, mas pela violência de interesses privados de costas quentes. Três anos depois, a situação política já permite a ele, via uma rede de solidariedade, arriscar um retorno, para pegar o filho. O silenciamento de Armando, com um simbólico tiro na boca, parece ser um bom arremate de negócio para Ghirotti, que se vale de antigos colaboradores, de “outras batalhas”, ex-militares, agora trabalhando para a livre iniciativa. E assim é feito.

O passado vem à tona por evocação, aos pedaços, como uma perna arrancada, de uma história que não é nem do heroísmo de combate — da guerrilha, movimentos ou jornalismo -, nem da repressão sistemática ligada à cúpula militar. Mas a Ditadura está por toda parte, atropelando vidas e projetos, em prol dos canalhas que constituem sua rede de aliados.

Tudo isso, e certamente muito mais, está neste filme legal pra caramba, crônica e thriller, de suspense, de amor, de ação, de terror. Um filme político, mas sem guerrilheiros, nem generais. De época, e também de hoje. De memórias perdidas e silêncios, de quem está sob ameaça mas está vivo e quer viver, como diz Armando, para os refugiados, e em especial para Cláudia. Daquela gente brasileira toda, que enchia e enche as ruas de Recife e de todas as nossas cidades. A história dos que vivem cercados de tubarões, história esburacada, história de Fátima, de Armando, minha, sua, de todos nós, que tantas vezes nos sentimos agentes secretos em nosso próprio país, perseguidos por redes obscuras, conspirando com nossos camaradas, para sobrevivermos, e quem sabe, um dia, arranjarmos uma casa com coqueiros na beira do mar, pra tudo mundo.

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Dez teses sobre Hannah Arendt, que partiu há meio século

Homenagem à pensadora em tempos de reconfiguração do fascismo. Revelou que o mal nasce e propaga-se na incapacidade de pensar. Mostrou que a vida é dada, mas o mundo é um artefato. A humanidade o faz e desfaz constantemente – e, por isso, pode ser diferente

O próximo dia 4 de dezembro marcará o 50º aniversário da morte de Hannah Arendt. Não é como se já se passaram cinco décadas sem essa teórica da política. Muito pelo contrário, na verdade. Desde os anos oitenta até os dias de hoje, livros, artigos, estudos e teses sobre a obra de Arendt proliferaram e se multiplicaram exponencialmente, e o nome da autora se tornou quase popular. Quando Donald Trump assumiu o poder pela primeira vez, em 8 de novembro de 2016, dois dos livros mais vendidos nos Estados Unidos nas semanas seguintes foram 1984, de George Orwell, e Origens do Totalitarismo, de Hannah Arendt.

Em vida, a obra de Arendt não teve a recepção e o reconhecimento que correspondiam a um pensamento original, que escapava aos cânones da filosofia política tradicional. Em contrapartida, nos últimos anos pode-se ter caído na tentação de acreditar que Hannah Arendt era uma moda passageira, mas o que realmente aconteceu é que se fez justiça a uma voz fundamental para tentar compreender o nosso tempo, cuja relevância hoje ninguém ousa contestar.

Em A condição humana, Hannah Arendt explicou que a era moderna nos fez perder o sentido daquilo que nos interessa e preocupa a todos por ser comum, ou seja, o sentido da importância primordial da política. E diagnosticou como fenômenos sociais da nossa época o desenraizamento, a solidão e o triunfo de um tipo de ser humano que, reduzido a si mesmo, só sabe encontrar satisfação no processo de trabalho e consumo, pois acaba subsumindo, interpretando e vivendo tudo sob esse binômio.


Por outro lado, Arendt não concebia a política — a liberdade — sem o reconhecimento não apenas da pluralidade e da diferença, mas também da contingência e da fragilidade do domínio dos assuntos humanos. De acordo com Arendt, o que isso implica é aceitar sem reservas e assumir a responsabilidade pelo mundo, assumir a necessidade de preservá-lo por meio da ação conjunta, tornando-o um lugar do qual ninguém possa se sentir excluído. Portanto, e levando em conta a experiência acumulada do século XX, é necessário opor-se a qualquer projeto totalizante, sonho idílico ou pensamento unilateral que se apresente de forma determinista como o único ponto de vista e a solução definitiva para os problemas da humanidade. Isso também significa que, no pensamento arendtiano, a dissidência desempenha um papel transcendental, mas não absoluto. A discordância faz parte da crítica e da resistência, do processo aberto de construção do mundo, para o qual o perdão, o pacto e a promessa também são necessários. “Isso é uma aventura”, assegurou Arendt em uma entrevista em 1964, “e agora eu diria que essa aventura só é possível quando há confiança nas pessoas. Uma confiança – difícil de formular, mas que é fundamental – no que há de humano em todas as pessoas. De outro modo, não se poderia empreender tal aventura.”

A continuação, apresento o que livremente chamo de dez teses sobre Hannah Arendt, como pequena homenagem e convite geral à leitura de sua obra.

1 – Para Arendt, o pensamento nasce da experiência, dos acontecimentos, do que acontece e do que nos acontece, e deve permanecer ligado a eles como os únicos indicadores a nos orientar.

2 – A liberdade, para Arendt, não é escolher entre uma coisa e outra, mas criar uma nova.

3 – Compreender não é o mesmo que estar bem informado ou saber, em sentido científico, mas a atividade inacabada por meio da qual tentamos chegar a um acordo com a realidade e sentir o mundo como nosso lar.

4 – A vida nos é dada, mas o mundo é um artefato. Somos nós que o fazemos e o desfazemos constantemente. Isso significa que o mundo poderia ser diferente.

5 – O mundo existe toda vez que falamos sobre ele. É por isso que a amizade tem uma dimensão política quando falamos de coisas que nos afetam a todos, e não, ou não apenas, quando falamos da nossa intimidade.


6 – Toda a obra de Arendt é uma defesa da política contra o totalitarismo, que é sua negação.

7 – “O mundo não viu nada de sagrado na abstrata nudez de ser unicamente humano”: sem instituições políticas e legais que garantam nosso “direito a ter direitos”, a barbárie e o caos se instalam. Esse é o drama que os refugiados vivenciam.

8 – “O fato que os homens, e não o Homem, vivem na Terra e habitam o mundo” é a condição humana da pluralidade. Todos os autoritarismos, e especialmente o totalitarismo, tentam destruí-la.

9 – Banalidade do mal significa que o pior pode vir do mais insignificante, da incapacidade de pensar, o que politicamente significa deixar de levar em conta todos ou a maioria dos pontos de vista. Do egoísmo podem surgir catástrofes. Por isso Arendt coloca como exemplo do mal banal o pai de família, que preocupado apenas com a segurança e o bem-estar dos seus, do privado, pode ser conivente com o surgimento de desastres políticos históricos.

10 – “Fatos informam opiniões, e as opiniões, inspiradas por diferentes interesses e paixões, podem diferir amplamente e ainda serem legítimas no que respeita à sua verdade fatual.A liberdade de opinião é uma farsa, a não ser que a informação fatual seja garantida e que os próprios fatos não sejam questionados.” Qualquer opinião baseada em fatos alternativos – outra maneira de nomear a pós-verdade – só alimenta um universo de fantasia a serviço de um segmento ideológico da população, e ajuda a corroer o mundo, que por definição é comum a todos.

+1 – “Não há pensamentos perigosos; o próprio pensamento é perigoso.”

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